Outra História sobre Shiva !!!,-)

Da antiga Índia, os resquícios se encontram em templos, cavernas, locais sagrados ou de peregrinação, nos locais históricos e também nos textos clássicos que, além de escassos, só são acessíveis a uma minoria que nem sempre compreende seus significados mais profundos. De certa forma, isso é positivo, pois eles não correm o risco de serem distorcidos ou mal utilizados.
O trabalho aqui apresentado nasceu desses textos clássicos, agrupados em duas estruturas conhecidas como Revelações (Shrutis) e Memórias (Smirtis), e dos ensinamentos que recebi e ainda recebo das rishis daquele outro mundo tão especial e das minhas próprias pesquisas e práticas diárias.
O que relato aqui ocorreu ao longo de milhões de anos e, nos últimos milênios, foi se perdendo normalmente. No entanto, parte desse longo processo cultural, histórico, espiritual, social ou mesmo religioso se manteve e foi agregado à mais íntima natureza e comportamento de uma camada do povo da região.
Na Índia, o sagrado e o espiritual geraram nas pessoas uma “inteligência espiritual”, mesmo se considerando o brutal avanço que o “materialismo histórico” vem impondo ao país e, mais que isso: a antiga cultura é um legado de civilizações extraplanetárias, conforme exposto em partes do Rig Veda e em outros clássicos – tendo sido depurado e adaptado para o desenvolvimento dos antigos drávidas e, depois, também para seus aliados árias, que trouxeram enormes contribuições para a região.
Foi do amálgama de tudo isso que se chegou a uma abrangente cosmovisão de universo e de mundo, refletida no conceito de ciclos ou eras. E dentro de um contexto ao mesmo tempo histórico e mítico, surge o deus Shiva, aquele que destrói a ilusão, o mal e todas as outras coisas, para que possam ressurgir.

Shiva é visto como o deus destruidor, o potencial. No Rig Veda, em muitos de seus versos métricos e em suas mandalas, encontramos descrições do deus Rudra, o deus ancestral de Shiva, uma vez que podemos encontrar todas as características de um em outro; incluem-se os atributos, os poderes, as virtudes e outras peculiaridades grandes ou pequenas.
Já no Yajur Veda, na sua ala branca conhecida como Vajasa Neyi, vamos encontrar a seguinte expressão: “Você que tem por nome Shiva”. Shiva, cuja tradução do sânscrito pode ser “benigno, clemente, cortês, amável ou afável”. Ainda no mesmo parágrafo, vamos ler as estrofes: “Habitando nas montanhas, com seu espírito iluminado, brilhe sobre nós. Possa ele, quem plana nas alturas com seu pescoço azul (Nilkanta) e untado de vermelho, lançar suas bênçãos sobre nós. Reverências a ele, de pescoço azul e de mil olhos, o generoso, o liberal, o abundante e senhor dos espíritos e dos animais”. Também é aqui que Shiva é louvado como Mahadeva.
Além dos Vedas, há muitos outros textos clássicos que tratam de forma direta sobre Shiva, sua história, sua vida, seus familiares e suas manifestações, inclusive descrevendo a ampla estrutura do shivaísmo e sua filosofia espiritual, com seus ritos e rituais de purificação, disciplina e ascese. E ainda, descrevendo a necessidade da busca pela pureza interior e exterior, elaborando detalhes como a regra de só ingerir alimentos vegetais ou cereais e sempre beber apenas líquidos puros como a água, ou os sumos e sucos de raízes e de frutas; e o amor e o respeito à natureza.
Entre esses textos clássicos podemos citar o Sata Rudriya, o Shivo Pakhyana, o Sri Shiva Tattva, o Maheshvara Sutras, o Maha Bharata, o Rama Yana, o Skanda Purana, o Padma Purana, o Garuda Purana, o Vamana Purana, o Bhagavata Purana, o Vishnu Purana – contendo a história do surgimento de Ardhanarishwara, com a descrição da substância e da energia – e, ainda, do Shiva Puarana, um dos textos mais sagrados e antigos, contendo a vida de Shiva e a origem do linga (m).
Também no Shiva Purana, vamos aprender as cerimônias e os rituais de regeneração, fertilidade, prosperidade, saúde ou bem-estar, além de parte da cosmogonia e da ampla filosofia shivaísta. Chega a apresentar detalhes como seu lugar de morada, seus atributos especiais, suas características, suas vestimentas, sua consorte e seus filhos, seu veículo para locomoção normal, os locais por onde ele passou, tanto aqui na Terra como em outras regiões distantes e desconhecidas, e parte das suas atividades cósmicas.


Os Doze Locais Sagrados
Entre outras informações, no Shiva Purana ficamos sabendo que há doze locais sagrados ou especiais onde se podem realizar as oblações ou adorações ao Deus Shiva. Eles são:
1. Soma Natha, em Prabhas Patan, no Gujarat;
2. Mallik Arjuna, em Sri Sailam, no Andhra Pradesh;
3. Maha Maleshwara, em Ujain;
4. Omkareshwara, em Mortaka;
5. Vaidyanatha, em Purulia, na Bengala Ocidental;
6. Nageshwara, em Dwaraka, no Gujarat;
7. Kashi Vishwanata, em Varanasi ou Avimukta;
8. Bhima Shankara, nas margens do rio Bhima, no Maharashtra;
9. Rameshwaran, em Ramnad, no Tamil Nadu;
10. Tryambakeshwara, em Nasik;
11. Kedar Nath, em Uttar Pradesh;
12. Ghrisheshwara, próximo a Ellora, no Maharashtra.

A consorte de Shiva é Parvati, filha de Himavat. Eles têm dois filhos: o mais velho é Ganesha, e o mais novo é Kartikeya. Residem no Monte Kailasha embora, em certas ocasiões, possam residir periodicamente em outros locais, como as grandes florestas. Seu veículo – vahana – é o touro branco Nandi, que é colocado na entrada de muitos templos dedicados ao deus.
Shiva é um deus asceta, severo com suas práticas, mas bondoso com seus devotos e seguidores. Os poderes ascéticos do deus são conhecidos como Jata Mukuta. Está associado ao fogo que, em seu aspecto material, é o elemento que destrói a matéria quando necessário. Em seu aspecto sutil, o fogo destrói as ilusões interiores do ser e o próprio carma individual.
Por outro lado, na simbologia da fertilidade, surge o shiva linga, cuja base arredondada ou ovalada representa yoni ou o órgão reprodutor feminino, e a parte superior ou fálica representa linga ou o órgão fecundador masculino. Porém, o shiva linga tem também a função de elemento devocional, seja nos templos ou nos shrines (santuários) – pequenos templos residenciais –, ou nos bosques, nas florestas, nas estradas, nas montanhas, e pode ser classificado de duas formas:
1. O chala linga, que é adorado nas residências ou em outros locais, e que é móvel. Pode ser de barro, argila, cerâmica, madeira ou outros materiais;
2. O achala linga, que é adorado exclusivamente nos templos e é fixo. Pode ser de pedra, de ferro, bronze, prata ou ouro. Nunca é retirado dos locais. Em geral, ele é composto por três partes distintas que são:
a) a parte mais baixa, que representa a qualidade de Tamas, ou elemento grosseiro;
b) a parte média, que é octogonal e representa a qualidade de Rajas ou o elemento intermediário na matéria;
c) a parte superior, cilíndrica ovalada e ereta, que representa a qualidade de Sattwas ou o elemento mais puro na matéria.
Ainda no Shiva Purana, no Sri Shiva Tattva e nos outros textos clássicos que tratam sobre o deus e sua história, vamos encontrar uma descrição muito importante do mesmo e que nos leva à sua identificação.

Em geral, Shiva é descrito ou apresentado como tendo três olhos, daí ser chamado Tri-Netra, Tri-Ambaka, Tri-Aksha ou Tri-Nayana, sendo que o olho central, no entrecenho (sobre o nariz, entre as sobrancelhas), permanece quase sempre fechado e só se abre no período de destruição das coisas, já que esta é a sua função.
Shiva usa cabelos longos – jata – e bem no alto da cabeça carrega o sagrado rio Ganga, gerado no mais alto dos céus pela deusa do mesmo nome. Também no alto da cabeça, em geral do lado esquerdo de quem olha, enganchado nos cabelos, traz a luz crescente – chandra devi –, que obteve quando do episódio de contenção das águas do oceano primordial, que havia tragado toda a terra.
Sua pele tem um tom azul-claro. Porém, em certas ocasiões, aparece com o pescoço azul-escuro, em função de ter ingerido o terrível veneno halahal, no já citado episódio do oceano primordial, conhecido como Kshira Samudra. Quase sempre aparece vestido apenas com uma longa pele de animal – tigre ou leão –, que tenha morrido de morte natural. E também quase sempre é representado sentado na postura perfeita – siddhasana –, e sobre uma pele de animal nas mesmas condições dos anteriores.
Ele pode aparecer com dois ou quatro braços. Nesses casos, na mão direita superior ele segura o tridente, ou trishula, que simbolicamente é o instrumento com o qual destrói as trigunas – tamas, rajas e sattvas –, ou os três elementos ou qualidades que aprisionam os seres no falso sonho da vida, e que geram a roda dos renascimentos cármicos.
Na mão direita inferior, ostenta o mudra da proteção e da paz interior – abhaya –, ofertado a todos os seres humanos como um instrumento natural para que estes possam realizar o próprio equilíbrio interior, conseguindo assim a paz individual e a coletiva, que poderá transformar o mundo em um lugar melhor para se viver. Na mão esquerda superior, ele segura um machado que, simbolicamente, reflete a disciplina interior e a ascese, através das quais é possível livrar-se do ego e, conseqüentemente, dos apegos, da inveja, das paixões e das ilusões.
A disciplina interior e a ascese podem ainda eliminar a ignorância mundana que, em última instância, é a origem e a causa de tudo de ruim que possa haver nas pessoas e na face da Terra.
Na mão esquerda inferior, ostenta um pequeno tambor dividido ao meio, chamado damaru, e que simbolicamente representa um relógio do tempo, através do qual controla o período em que chegará o fim de cada ciclo ou era, quando então Shiva irá comandar a fase de dissolução, ou pralaya, de tudo o que for necessário.
Às vezes, ele pode aparecer com uma serpente naja enrolada no pescoço, o que manifesta sua potencialidade de eliminar por completo o medo, a angústia, a tristeza e o desalento dos seus devotos e fiéis, se estes assim lhe rogarem. Também é normal ele estar usando grandes japa-malas, ou rosários, feitos com as sementes da planta sagrada rudraksha, com os quais entoa os mantras divinos ou cânticos especiais nos ritos e rituais shivaístas.
É muito importante frisar que existem outras simbologias para o deus Shiva, mas estas aqui apresentadas estão entre as principais.

O Shiva Ratri, em algumas regiões da Índia chamado Maha Shiva Ratri, é conhecido como a noite de Shiva ou o grande festival de celebração ao mesmo. Ocorre no décimo quarto dia da “lua escura” – krsna caturdashi –, no mês de Magha, que no Ocidente corresponde a fevereiro e março e se estende por todo o dia seguinte. Mas o evento também inclui um período de promessas e de votos solenes.
Durante toda a noite, em suas casas, comunidades, templos ou em locais especiais, os devotos entoam mantras em louvor ao deus Shiva, em toda a sua magnificência – cerimônia chamada jagarana.
Nas cerimônias, primeiro lavam-se os lingans com água do rio Ganga e, depois, colocam-se junto aos mesmos: (1) leite, (2) coalhada, (3) manteiga clarificada – ghee –, (4) mel e (5) flores, chamados os cinco elementos ou pancha amrta. Nesse período, os fiéis se abstêm de qualquer tipo de alimento fazendo jejum – ekadashi. No dia seguinte, ao fim do jejum, se alimentam com frutas, sementes, batata-doce e arroz integral cozido sem nenhum tempero.
Cerimônias muito importantes são realizadas nos templos shivaístas em geral e, durante a noite, as imagens de Shiva são adornadas com folhas verdes de diversas plantas e árvores, sendo as preferidas as da árvore de bilva, enquanto os devotos cantam o japa ou mula mantra “Om Namashivaya”, em múltiplos de 108 vezes, e fazem o rito do fogo ou home, no qual pedem pelas bênçãos e graças ao deus.
Ao mesmo tempo, além de todas as comemorações, há também o “Voto de Vrata” ou austeridade. Todo bom devoto deve observar e seguir esse voto durante 12, 14 ou 24 anos e, ao final do período, deverá realizar o ritual de Udyapana ou de conclusão do voto de Vrata ou austeridade; quando seguido e cumprido seriamente, representa uma grande purificação ou até mesmo uma profunda espiritualização.
Mas nos dias atuais as coisas já não ocorrem dessa forma. A história do evento pode ser encontrada no Skanda Purana, no Padma Purana e no Garuda Purana, com todos os seus detalhes mais significativos.
Ao longo dos milênios, Shiva tornou-se um dos principais deuses da Índia e de muitos outros países do planeta. Então, que possa sua riqueza espiritual e divina trazer luz a este ciclo de trevas e ignorância.
Na transição da Era de Kali, namaste e até a próxima!


Os Outros Nomes de Shiva
Ao longo das suas manifestações, que são muitas – em textos clássicos citam-se mil –, Shiva recebe outros nomes de acordo com as circunstâncias e as ocorrências cósmicas com as quais está envolvido. Os mil nomes de Shiva, com seus atributos específicos, encontram-se no Shiva Purana. Entre eles vamos encontrar:
1. Nataraja, o deus da dança do universo, com suas imagens de Ananda-Tandava-Murti, Uma-Tandava-Murti, Tripura-Tandava-Murti e Urdhva-Tandava-Murti, que simbolizam as diferentes fases desta dança e seus significados;
2. Dakshina Murti, o deus do conhecimento;
3. Maheshwara ou Maha Deva, o grande deus;
4. Ishwara, o todo-glorioso;
5. Chandra Shekara ou aquele que usa a meia-lua na fronte;
6. Mritunjaya, o que conquistou a morte;
7. Sri Kanta, aquele cujo pescoço é bonito;
8. Ganga Dhara, aquele que sustenta Ganga nos cabelos;
9. Girisha, o senhor das montanhas;
10. Kedar Nath, o senhor das montanhas;
11. Digambara, o vestido com o céu;
12. Ishana, o deus dos preceitos, dos códigos e das regras;
13. Maha Kala, o deus do tempo;
14. Try Ambaka, o de três olhos;
15. Bhuteswara, senhor dos Bhuts, demônios ou maus espíritos;
16. Vyoma Kesha, o que tem o céu e o espaço em seus cabelos;
17. Rudra, o de muitos atributos;
18. Ardhanarishwara, o que une energia e substância;
19. Pashu Pati, o senhor dos animais;
20. Bhairava, o terrível, o destruidor dos inimigos;
21. Aghora, o assustador, o pavoroso;
22. Nadesha, o senhor da dança;
23. Pancha Nana, o de cinco faces;
24. Sadashiva, o eterno, o auspicioso;
25. Tribhu Vaneshvara, o senhor dos três mundos;
26. Shiva Shankara, o sempre auspicioso;
27. Vishvanatha ou Viveshvara, o senhor do universo;
28. Vishalaksha, o senhor da visão;
29. Ugradeva, o feroz, o violento, ardente, fogoso;
30. Srimat, o todo glorioso.


Alguns Mantras de Shiva
1. Om, namah Shivaya, subham subbam, kuru kuru, Shivaya Namah Om. Este é um mantra altamente meritório e auspicioso, que gera prazer e paz interior. É cantado na busca da salvação, sendo que elimina desejos e traz felicidade aos devotos de Shiva.
2. Shiva Mantra – Om Namah Shivaya.
3. Shiva Gayatri Mantra Maheshaya Vida Mahe, Mahadevaya Dhi Mahi, Tannaha Shivaha Pracho Dayata.
4. Maha Mrityumjaya Mantra Om trayam bakam yaja mahe, Sugandhim pusti vardhanam, Urvaru kamiva bandhanam, Mrityor mukshiya ma mritat.
5. Nilkantha Mantra Om namo bhagavate Nilkanthaya cihi, Amalkanthaya cihi, Sarvanjnya kanthaya cihi, Kship kship Om swaha, Amal nili kanthaya, Naik sarp vishaphaya, Namaste Rudra manyave.
Ao vocalizar tais mantras corretamente, obtém-se profundo equilíbrio espiritual, tanto individual quanto coletivo. E mais: mudam-se as ondas de vibrações locais e planetárias, visando a uma vida melhor e a um mundo mais sereno e harmonioso.
Desde tempos remotos, o culto a Shiva apregoa duramente a defesa da natureza, em todos os seus componentes, e em especial a água e o ar. Isso significa que tal vida melhor inclui, definitivamente, a reciclagem do chamado “lixo”, em todos os sentidos.

 

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