O CÉREBRO COMO COMPUTADOR QUÂNTICO A CONSCIÊNCIA COMO SEU PRODUTO E O ESPÍRITO COMO FENÔMENO !!!,-)

por Kaantrah Prema, terça, 12 de abril de 2011 às 11:15

O cérebro seria um “computador quântico”. Este conceito foi bastante trabalhado pelo físico David Deutsch (Haifa, 1953, é um físico israelense da Universidade de Oxford. É pioneiro no campo dos computadores quânticos e um proponente da “Interpretação de muitos mundos” da mecânica quântica.) que mostrou que tal computador seria mais eficiente do que um computador digital.  Por seleção natural, essa vantagem computacional poderia ter favorecido um cérebro que fosse um computador quântico.  O problema com este argumento é que o cérebro é muito “quente” para que tal computação quântica pudesse ocorrer.O cérebro computaria funções não-recursivas. Computadores clássicos e quânticos só podem computar funções “recursivas”, mas o pensamento humano (por exemplo, a intuição matemática) extrapolaria esta limitação. Uma solução inovadora ao problema do colapso na mecânica quântica talvez solucionasse também esse problema da consciência, conforme sugestão do físico, Sir Roger Penrose (Colchester, 8 de Agosto de 1931, é um físico matemático inglês, professor emérito de matemática da Universidade de Oxford.), o problema aqui é que não se mostrou rigorosamente que o pensamento humano é capaz de computar funções não-recursivas.Um fenômeno quântico semelhante à “condensação de Bose”  que é uma fase da matéria formada por bósons a uma temperatura muito próxima do zero absoluto. Nestas condições, uma grande fracção de átomos atinge o mais baixo estado quântico, e nestas condições os efeitos quânticos podem ser observados à escala macroscópica, poderia ocorrer no cérebro.  Este fenômeno é observado a baixas temperaturas, quando um grande número de partículas se comporta identicamente. O físico H. Fröhlich propôs, em 1968, um modelo biológico deste fenômeno de “coerência” à temperatura ambiente, envolvendo moléculas dipolares. Alguns pesquisadores afirmam ter encontrado evidência de que tal fenômeno ocorreria no cérebro, mas não há comprovação de que tais sistemas de fato existem em sistemas biológicos.O cérebro seria regido por leis análogas às da mecânica quântica. Existe uma abordagem em neurociência que supõe que a convencional dinâmica do neurônio e da sinapse não é fundamental, e que as funções cerebrais podem ser descritas por um “campo dendrítico” que obedeceria a equações da teoria quântica de campos. Esta abordagem matemática foi inspirada na proposta de Karl Pribram, nos anos 60, de um modelo “holonômico” para o cérebro. Mas o fato de leis análogas às da mecânica quântica descreverem funções cerebrais não implica que tais funções constituam um fenômeno quântico.  Além disso, em tais modelos não se introduzem medições que causam colapsos, o que sugere que a descrição destes autores é meramente ondulatória.A liberação de neurotransmissores é um processo probabilístico, que seria descrito apenas pela física quântica. Tal liberação, chamada de “exocitose”, ocorreria com uma probabilidade relativamente baixa (de cada 5 impulsos nervosos chegando à vesícula sináptica de células piramidais do neocórtex, apenas 1 liberaria o neurotransmissor).  De acordo com John Carew Eccles (Melbourne, 27 de Janeiro de 1903 — Locarno, 2 de Maio de 1997, foi um neurofisiologista australianoi agraciado com o Nobel de Fisiologia/Medicina de 1963, por realizar pesquisas sobre o mecanismo dos impulsos nervosos e seu modo de transmissão.), a mente (que em sua visão dualista existe independentemente do cérebro) poderia alterar levemente essas probabilidades de exocitose, o que constituiria um mecanismo para a ação da mente sobre o cérebro. Se ele estiver correto e a exocitose puder ser descrita pela teoria quântica, faltaria mostrar que a mecânica quântica é necessária para decrever este fenômeno, e de que forma este fenômeno estaria ligado com a emergência da consciência. Em nível subneuronal ocorreria processamento de informação. Nos anos 70 descobriu-se que as células possuem uma delicada estrutura formada por “microtúbulos” de proteína, formando um “citoesqueleto”. Como tais microtúbulos são cilindros com diâmetro de apenas 25 nanometros (10-9 m), é razoável supor que eles só possam ser adequadamente descritos pela física quântica.  Resta saber se de fato o citoesqueleto tem uma função cognitiva, além de sua função estrutural e de transporte. A mecânica quântica explicaria fenômenos de percepção extra-sensorial. Alguns autores partem do princípio de que a consciência pode exercer influência direta sobre processos naturais, e procuram mostrar como um modelo quântico da consciência daria conta deste e de outros tipos de fenômenos. Em suma, parece-me não existe evidência concreta de que a física quântica seja necessária para explicar a consciência. É verdade, porém, que se trata de uma questão “empírica”, ou seja, só a ciência do futuro poderá dar uma resposta mais definitiva. Por outro lado, é plausível supor que o mistério da consciência deva envolver algum princípio científico novo, além do fato de que a consciência se origina em um sistema altamente complexo, como nosso cérebro. Qual será este princípio novo? Talvez obtenhamos uma resposta neste século XXI, que satisfaça os doutores da ciência que esperam por modelos físicos que comportem-se como simples partículas materiais com suas características testáveis e comprováveis, enquanto isto não acontece podemos averiguar pensamentos não ortodoxicos que talvez se aproximem mais da verdade buscada como no caso do físico indiano Amit Goswami que tem se destacado na mídia, defendendo uma interpretação “idealista” da teoria quântica. Uma de suas teses centrais é que a consciência humana seria responsável pelo colapso da onda quântica, O dilema do místico ou do religioso, em face da ciência, é o seguinte: deve-se aceitar a existência de fenômenos que vão contra o que prevê a ciência estabelecida, ou deve-se aceitar apenas a existência de entidades e processos que não entram em contradição com a ciência? Chamarei o primeiro de misticismo “desafiador” da ciência, e o segundo de misticismo “conciliador” com a ciência. Por exemplo, deve-se aceitar que o ser humano evoluiu a partir de outros primatas, ao longo de milhões de anos, ou deve-se acreditar que ele foi criado por Deus de forma já acabada? Alguém que acredite em Deus e em outros mistérios, mas que aceita a evolução humana, está adotando uma postura conciliadora com a ciência. Neste caso, o texto da Bíblia deve ser interpretado de maneira figurada, e não de maneira literal. Já os chamados “criacionistas” adotam uma postura desafiadora da ciência. Parece-me que a chamada “ciência ortodoxa” inclui duas posições diferentes: a materialista e a positivista. A ela se opõe uma interpretação mística da ciência, que podemos chamar de “naturalismo animista”, e que tem tido um papel de destaque ao longo de toda história da ciência. Sabemos que a física quântica pode ser interpretada de maneira mística. E a questão é a seguinte: o que é a ciência ortodoxa? Quando afirmo que a ciência ortodoxa não aceita, por exemplo, os resultados dos experimentos de Masaru Emoto – que defende que a estrutura cristalina da água é afetada pelas emoções humanas –, a que visão de mundo estou me referindo? Há basicamente três grandes pontos de partida para as visões sistemáticas de mundo:

  1. A abordagem mítica ou religiosa parte do sobrenatural, de Deus ou de diversos deuses com características humanas.
  2. A abordagem naturalista parte da Natureza, com suas leis e regularidades, e procura explicar tudo, inclusive o homem, a partir das ciências naturais.
  3. A abordagem humanista ou subjetivista assume que o homem é a medida de todas as coisas, ou então que o ponto de partida do conhecimento é o sujeito pensante, que é anterior à ciência.

Esses pontos de vista não são necessariamente excludentes, mas ao longo da história podemos classificar boa parte dos sistemas filosóficos e visões de mundo dentro de uma dessas três classes. O debate sobre misticismo e física quântica se dá basicamente dentro do naturalismo. Esta é uma atitude de valorização da nossa experiência e da natureza. Ela considera que a experiência se refere a um mundo que possui uma certa unidade e segue leis, e não sofre ingerências de almas antropomórficas. É uma posição que valoriza o conhecimento científico contemporâneo. Por exemplo, ao estudar uma questão filosófica, ela leva em conta os resultados da psicologia e da neurociência. Há pelo menos três grandes correntes dentro do naturalismo científico:

1) Materialismo 

Esta é a tese de que tudo o que existe pode ser reduzido a entidades físicas, como matéria, energia, entropia, campos, etc. A alma humana seria fruto da matéria, de forma que, na morte do corpo, desapareceria também a nossa alma. Fora de nós, no mundo material, não haveria propósitos, intenções, vontades, racionalidade, mas apenas o comportamento espontâneo da matéria. A origem da vida é explicada como fruto do acaso e do mecanismo da seleção natural. Boa parte da ciência ortodoxa condiz com esta visão de mundo. 

Quando um fisiologista submete um camundongo a um certo estresse, corta-lhe a cabeça e mede a concentração de um hormônio em seu cérebro, ele está atuando de forma condizente com o materialismo, buscando as raízes materiais do comportamento. O materialismo atual não consegue explicar como surge a subjetividade, a consciência, como surge a “vermelhidão” que percebemos ao olharmos para um morango vermelho. Mas o sucesso crescente da abordagem materialista dá esperanças, para o cientista ortodoxo que vê o mundo desta maneira, que um dia os problemas difíceis da subjetividade serão desvendados, talvez após a descoberta de novos princípios que regeriam a matéria. Podem-se delinear seis grandes fases na história do materialismo: o atomismo da Antigüidade greco-romana, o materialismo indiano (Carvaka), em parte a filosofia mecânica cristã do séc. XVII (como em Hobbes), o iluminismo do século XVIII, a ascensão da fisiologia e do evolucionismo no séc. XIX, e o realismo “fisicalista” atual (que retoma, na década de 1960, o espaço perdido para o positivismo). Vale notar que boa parte da discussão na filosofia da mente atual pressupõe o fisicalismo (que é sinônimo de materialismo), sendo marcada por um debate entre o reducionismo e o “emergentismo”. 

2) Positivismo  

A abordagem precedente pode ser chamada de “realista”, pois ela tece afirmações sobre como se comporta a realidade não-observável. O positivista, por seu turno, considera que isso é apenas especulação metafísica, e não tem lugar na ciência. O positivista leva a sério apenas as observações, os “dados positivos” obtidos pelos instrumentos científicos. Há, é claro, lugar para teorização, mas esta seria apenas uma maneira de sistematizar o nosso conhecimento – não devemos presumir que nossas teorias espelhem a realidade que está para além de nossa observação. Dizer que a matéria é o fundamento da realidade, ou que a alma desaparece na morte, careceria de sentido. Perguntado sobre qual é a explicação para a experiência subjetiva da “vermelhidão”, por exemplo, o positivista responderia tipicamente que esta pergunta está mal formulada, pois usa a linguagem de maneira inapropriada. O positivismo teve seu período áureo na ciência mais ou menos entre 1870 e 1970, e ele foi muito forte nas interpretações ortodoxas da física quântica.

 

3) Naturalismo animista  

Assim como o materialismo, esta visão busca os segredos da Natureza de maneira “realista”, mas – ao contrário dos materialistas, que consideram que esta realidade é inanimada – ela considera que a Natureza é dotada de uma espécie de alma, de uma “força” ou “energia” que a guia e dá sentido às nossas vidas. Historicamente, o naturalismo animista está associado ao nascimento da ciência, nas tradições do pitagorismo, estoicismo, taoísmo, hermetismo, astrologia e alquimia. No Renascimento, esta tradição teve bastante importância, sendo hoje conhecida como “naturalismo renascentista”. Um fenômeno como a atração magnética era visto como análogo à atração amorosa entre seres vivos (em francês, a palavra para imã, aimant, tem a mesma raiz que amour). No século XIX, o naturalismo animista teve uma certa importância na ciência inglesa e alemã, estando associada ao movimento romântico. Na Alemanha, o filósofo Friedrich Schelling sistematizou esta abordagem, que veio a ser conhecida como Naturphilosophie (filosofia da natureza), influenciando a homeopatia, a antroposofia, etc. Na década de 1960, essa visão de mundo se fortaleceu novamente, com o movimento “nova era”, etc. Na ciência, no entanto, as posturas positivista e materialista continuaram dominando, e muitas das crenças científicas associadas a esta versão moderna do naturalismo animista são consideradas “pseudociência”, como a astrologia, a homeopatia e a parapsicologia.

Eis então um breve resumo de três grandes posturas nas ciências naturais. O que tenho chamado de “ciência ortodoxa”, e que talvez congregue em torno de 90% dos cientistas, parece se dividir principalmente nas atitudes materialista ou positivista. O misticismo quântico faria parte da terceira corrente científica, que chamei de “naturalismo animista” (por falta de um nome melhor), e que tem uma longa tradição na ciência, apesar de sua importância ter gradativamente diminuído ao longo dos séculos.

 

O yin-yang da complementaridade

 

Niels Bohr (1885-1962) foi um físico muito importante para o desenvolvimento da física quântica. Em 1913, o jovem dinamarquês conseguiu aplicar as idéias da nascente física quântica (que se iniciou em 1900 com Max Planck) para representar o átomo, que seu orientador Ernest Rutherford, em Manchester, havia mostrado em 1911 ter um núcleo duro cercado de elétrons.

 

O chamado “modelo atômico de Bohr” é ensinado até hoje no Ensino Médio, apesar de ele ter sido superado pela nova mecânica quântica, que surgiria em 1925, com o trabalho do grupo de Göttingen (Heisenberg, Jordan & Born) – a chamada mecânica matricial –, e início de 1926, com a mecânica ondulatória de Schrödinger, que trabalhava em Zurique. Os físicos logo mostraram que essas duas abordagens eram equivalentes, e é o que hoje chamamos de “mecânica quântica”.

Em torno de 1927, Bohr já não estava na linha de frente dos cálculos matemáticos, mas sua maturidade o fez refletir profundamente sobre o significado da nova física dos átomos. Ele estava preocupado com a questão da interpretação da teoria quântica. Nos textos desta coluna, já indiquei várias vezes que a teoria quântica pode ser interpretada de diversas maneiras – com efeito, nos últimos textos explorei a “interpretação ondulatória realista”, que fala em colapsos reais da onda quântica, e da subcorrente “subjetivista” que defende que seria a consciência humana que causaria tais colapsos.   No entanto, não foi esta a interpretação que imperou na comunidade dos físicos. A interpretação que tornou-se hegemônica a partir de 1928 foi aquela construída em torno das idéias de Bohr, e conhecida como “interpretação da complementaridade” (às vezes chamada também de “interpretação de Copenhague”, ou “ortodoxa” – apesar da ortodoxia às vezes salientar abordagens próximas mas distintas da de Bohr).   Esquiando na Noruega, no início de 1927, Bohr teve a idéia de que as entidades fundamentais do mundo não eram partículas – como os atomistas sempre supuseram – e nem ondas – como Schrödinger supunha. Na verdade, nem faria sentido dizer o que seriam essas entidades fundamentais, pois o nosso conhecimento tem limites (como salientara o filósofo Immanuel Kant no século XVIII). Trabalhamos com representações da realidade, e não teríamos acesso às “coisas em si”. Então, a questão que se colocava para Bohr era a de qual é a melhor representação da realidade do mundo microscópico (hoje em dia falaríamos “nanoscópico”): uma baseada em partículas ou uma baseada em ondas?  Uma idéia que Werner Heisenberg considerava nesta época – este jovem alemão estava então trabalhando com Bohr em Copenhague – era de que tanto faz usar uma representação corpuscular (ou seja, em termos de partículas) ou ondulatória: ambas forneceriam as mesmas previsões experimentais.

Corpuscular ou ondulatório

 

A idéia de Bohr era de que o uso de um quadro corpuscular ou ondulatório dependeria do experimento em questão. Dado um experimento, o fenômeno seria ou corpuscular, ou ondulatório, nunca os dois ao mesmo tempo. Se um fenômeno é representado num quadro ondulatório, ele não poderia ser representado adequadamente em um quadro corpuscular, e vice-versa. E o que faria um experimento enquadrar-se num quadro ou no outro? A resposta era simples: se o experimento exibir franjas de interferência, ele é ondulatório; se pudermos inferir a trajetória do quantum detectado, o fenômeno é corpuscular.  O princípio da complementaridade afirma que um fenômeno ou é corpuscular, ou é ondulatório, nunca ambos ao mesmo tempo. Ou seja, se temos interferência, não temos trajetória, e vice-versa. Além disso, Bohr afirmava que essas duas descrições “exaurem” as possibilidades de descrição, ou seja, não haveria uma maneira mais completa de representar uma entidade quântica, como um elétron.   O que é um elétron? Em alguns experimentos, ele se comportaria como partícula, em outros, como onda. Poderíamos dizer que ele é uma entidade mais complexa, um “quanton” (como alguns autores sugerem), que só pode ser observado sob uma perspectiva ou outra? Essa leitura realista é interessante, mas não era assim que Bohr pensava. Pode-se dizer que Bohr era um “instrumentalista” ou “positivista” (apesar deste último termo ser impreciso, e Bohr até rejeitá-lo), ou seja, para ele a tarefa da ciência seria descrever o que se pode observar, e não especular metafisicamente sobre aquilo que está para além das possibilidades de observação.   Não me aprofundarei agora nessa noção de complementaridade de Bohr, que apresentamos aqui como sendo a “dualidade onda-partícula para arranjos experimentais”. Ao invés disso, eu queria só comentar a importância que esse princípio adquiriu para o pensador dinamarquês. Ele começou a aplicar a noção de complementaridade para várias áreas do saber.   De início, supôs que haveria uma complementaridade na biologia, entre a unidade de um ser vivo e a sua análise física, mas no final de sua vida abandonou essa idéia. Uma das origens da concepção de Bohr era a psicologia de William James, de onde ele derivou uma complementaridade entre pensar e sentir: se tento pensar sobre aquilo que estou sentindo, eu deixo de sentir aquilo. Na ética, sugeriu uma complementaridade entre justiça e compaixão, e na linguagem, entre o uso de uma palavra e sua definição estrita.   Bohr encontrou na filosofia chinesa do yin-yang uma expressão antiga de sua concepção filosófica, tanto que colocou o tradicional símbolo do yin-yang no centro do brasão que desenhou quando foi agraciado com a Ordem do Elefante da Dinamarca. O lema do brasão é “contraria sunt complementa” (contrários são complementares). Com relação à filosofia de Bohr, em português, há um excelente artigo de Gerald Holton publicado na revista Humanidades, nº 9 (1984), pp. 49-71, da Universidade de Brasília, intitulado “As Raízes da Complementaridade”. Além disso, há diversos textos de divulgação escritos pelo próprio Niels Bohr, publicados no livro Física Atômica e Conhecimento Humano, da Editora Contraponto, 1995.

A consciência legisladora ou quando o observador cria a realidade.

Apresentamos o famoso “problema da medição” da física quântica (clique aqui e leia), que consiste no seguinte. Em primeiro lugar, devemos supor que as entidades microscópicas (átomos, elétrons, luz) existem de maneira real, e que elas tenham uma natureza “espalhada”, como ondas, que existem em todo instante de tempo, mesmo quando não as estamos observando. Essa primeira suposição, conhecida como “realismo ondulatório”, não é aceita por todos os físicos e filósofos quânticos, mas é a partir dela que o problema da medição se formula de maneira clara.

“A interpretação subjetivista da teoria quântica foi defendida por diversos cientistas ortodoxos, apesar de eles constituírem uma pequena minoria na comunidade acadêmica”

Supondo isso, somos obrigados a reconhecer que as entidades quânticas sofrem “colapsos”, ou seja, a onda associada a elas sofre transições abruptas (por exemplo, antes estavam espalhadas por distâncias de metros, e depois ficam restritas a dimensões de milímetros). Outra maneira de exprimir isso é dizer que uma “superposição quântica” foi “reduzida” a um estado bem localizado.

Esses colapsos ocorrem toda vez que uma medição é efetuada no sistema quântico. A questão é determinar qual etapa do processo de medição é responsável pelo colapso da onda. Seria a detecção (interação com uma placa metálica)? Seria a amplificação (que envolve um aumento de energia advinda de uma fonte externa, como uma bateria)? Seria o registro macroscópico (um número escrito em um papel ou na tela de um computador)? Ou seria a observação feita por um ser consciente?

Todas essas possibilidades são plausíveis, e a questão está longe de estar decidida. Cada uma dessas possibilidades constitui uma “interpretação” da teoria quântica (já mencionamos que há dezenas de interpretações diferentes, o que contribui para a dificuldade que o leigo tem em entender o que está acontecendo!). No entanto, a concepção de que é o ser humano consciente que seria responsável pelo colapso sempre chamou atenção de filósofos e místicos, e é esta visão que examinaremos agora.

 

Consciência humana e colapso da onda 

A idéia de que a consciência humana provocaria o colapso de uma partícula surgiu na década de 1930, em um período em que alguns consideravam eminente o surgimento de uma revolução científica na biologia e na psicologia, assim como tinha acontecido na física. Alguns historiadores da ciência, como Max Jammer, mencionam que foi o matemático húngaro John von Neumann quem lançou a idéia de que a consciência humana causaria o colapso, em torno de 1932, mas ele não publicou nada a respeito. Em 1939, o físico alemão Fritz London e o francês Edmond Bauer popularizaram essa visão em um pequeno livro, lançado em Paris, e intitulado La Théorie de l’Observation em Mécanique Quantique, com versão em inglês publicada em 1983.Logo antes de ocorrer um colapso, London & Bauer consideraram a cadeia que consiste no objeto quântico, no aparelho de medição e no observador consciente, de forma que todos estariam em uma superposição. Em suas palavras:

“O observador tem uma impressão completamente diferente. Para ele é somente o objeto x e o aparelho y que pertencem ao mundo externo, ao que ele chama de ‘objetividade’. Por contraste, ele tem consigo mesmo relações de caráter muito especial. Ele possui uma faculdade característica e bastante familiar que chamaremos de ‘faculdade de introspecção’. Ele consegue acompanhar de instante para instante o curso de seu próprio estado. Em virtude deste ‘conhecimento imanente’, ele atribui a si mesmo o direito de criar sua própria objetividade – isto é, cortar a cadeia de correlações estatísticas […] declarando: ‘Eu estou no estado wk’ […] Assim, não é uma misteriosa interação entre o aparelho e o objeto que produz um novo PSI para o sistema durante a medição [ou seja, o colapso]. É somente a consciência de um ‘eu’ que pode se separar da função prévia PSI (x,y,z) e, em virtude de sua observação, montar uma nova objetividade ao atribuir ao objeto de agora em diante uma nova função PSI (x) uk(x)” (London & Bauer, [1939] 1983, pp. 251-2).O leitor não precisa se preocupar com os símbolos matemáticos e em entender exatamente como London & Bauer explicavam o poder que essa chamada “consciência legisladora” teria sobre o objeto quântico. Independente de sua explicação filosófica, o fato é que eles inauguraram uma “interpretação subjetivista” da mecânica quântica (às vezes chamada de “idealista”), que afirma que nossa consciência teria o poder de provocar um colapso, apesar de nossa consciência não poder afetar qual é o resultado da medição.

Outro físico importante que defendia explicitamente que a consciência seria essencial na observação, e portanto no colapso, foi Walter Heitler (1949). Ele analisou a possibilidade de se completar uma observação por meio de um aparelho “auto-registrador”, consistindo de duas telas fotográficas paralelas que não absorvem as entidades quânticas. Considerando a passagem de apenas uma partícula carregada, temos certeza (para eficiências de detecção de 100%) que, após serem reveladas, ambas as chapas apresentarão uma marca aproximadamente no mesmo ponto do plano das chapas. Heitler argumentou que o colapso pode ser produzido pela segunda chapa, se esta for revelada primeiro:

“A primeira tela auto-registradora, por si só, não traz certeza para [o resultado de] observações futuras, a não ser que o resultado seja reconhecido por um ser consciente. Vemos, portanto, que aqui o observador aparece como uma parte necessária da estrutura inteira, e em sua plena capacidade enquanto ser consciente. A separação do mundo em uma “realidade externa objetiva” e “nós”, os espectadores auto-conscientes, não pode mais ser mantida. Objeto e sujeito tornaram-se inseparáveis um do outro” (Heitler, 1949, pp. 194-5).

Outros cientistas que defenderam explicitamente posições semelhantes foram o físico James Jeans, o astrônomo Arthur Eddington e o bioquímico John Haldane. O físico Eugene Wigner (1964) resumiria da seguinte maneira esta concepção:

“[…] os físicos concluíram ser impossível fornecer uma descrição satisfatória de fenômenos atômicos sem fazer referência à consciência. Isto [tem a ver com] o processo chamado ‘redução do pacote de onda’ […]. A consciência evidentemente desempenha um papel indispensável.”

Detive-me, neste texto, em alguns detalhes históricos, para indicar como a interpretação subjetivista da teoria quântica foi defendida por diversos cientistas ortodoxos, apesar de eles constituírem uma pequena minoria na comunidade acadêmica. A partir do final da década de 1980, essas idéias foram incorporadas como ponto de partida do movimento cultural que chamarei de “misticismo quântico”, e que hoje está bastante presente na mídia.

 

Outras espécies também têm consciência. A diferença estaria no grau dela. Enquanto uma anêmona do mar, por exemplo, se expande ou se contrai diante da presença da luz solar, o homem tem uma série de instrumentos para representar o ambiente de uma forma bem mais sofisticada. Diante de um risco de assalto iminente, por exemplo, sentimos medo, tentamos antecipar visualmente o que pode acontecer, calculamos a chance de escapar, nos lembramos das pessoas que amamos, enfim, nosso cérebro realiza simultaneamente uma série de atividades. E, após essa experiência, esses acontecimentos assim como os sentimentos envolvidos nele são registrados para que você se sinta ruim novamente diante de outra ameaça e tenha mais chances de sobreviver. Mas em que momento essas atividades formam aquilo que você chama de sua consciência? Para Susan Greenfield, pesquisadora da Universidade de Oxford, a consciência não é um lampejo, mas um contínuo de conexões dos seus neurônios, que vão ocorrendo do momento em que você nasce até o fim da sua vida. A cada nova experiência, seu cérebro faz uma representação mental que é armazenada em sua memória. Ao comer uma comida diferente, por exemplo, surgiria uma mudança nas conexões do seu cérebro. Quanto mais o mundo passa a ter significado para você, mais conexões são feitas em seu cérebro, diz Greenfield.Hoje, ações do nosso cérebro podem ser monitoradas por meio da técnica de tomografia por emissão de pósitrons, que mede a quantidade de energia que cada área consome em cada uma dessas atividades. O resultado dessas pesquisas tem revelado que as diversas atividades responsáveis pela nossa consciência requerem o casamento de várias regiões. Ou seja: o que faz de você você é a soma de todas as representações que você faz dos outros e do seu ambiente, que podem se expandir a cada dia, desde que você mantenha sua consciência

consciência é uma qualidade da mente, considerando abranger qualificações tais como subjetividade, auto-consciência, sentiência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente. É um assunto muito pesquisado na filosofia da mente, na psicologia, neurologia, e ciência cognitiva. Alguns filósofos dividem consciência em consciência fenomenal, que é a experiência propriamente dita, e consciência de acesso, que é o processamento das coisas que vivenciamos durante a experiência (Block 2004). Consciência fenomenal é o estado de estar ciente, tal como quando dizemos “estou ciente” e consciência de acesso se refere a estar ciente de algo, tal como quando dizemos “estou ciente destas palavras”. Consciência é uma qualidade psíquica, isto é, que pertence à esfera da psique humana, por isso diz-se também que ela é um atributo do espírito, da mente, ou do pensamento humano. Ser consciente não é exatamente a mesma coisa que perceber-se no mundo, mas ser no mundo e do mundo, para isso, a intuição, a dedução e a indução tomam parte.

Consciência – função alta da mente

Função mental de perscrutar o mundo, conforme afirma Steven Pinker, a consciência é a faculdade de segundo momento – ninguém pode ter consciência de alguma coisa (objeto, processo ou situação) no primeiro contato com essa coisa; no máximo se pode referenciá-la com algum registro próximo, o que permite afirmar que a coisa é parecida com essa ou com aquela outra coisa, de domínio.

consciência (organismo do sistema conhecedor humano), provavelmente, é a estrutura mais complexa que se pode imaginar atualmente.

Na obra a mente humana, a consciência é instanciada, tecnicamente, em sete camadas: do nível zero, factual (onde as coisas acontecem), até uma atividade ômega, dois pontos acima do nível que experimentamos hoje (consciência padrão); aquele estado conhecedor que conhece, e que seria alcançado apenas pelo ser humano.

António Damásio, em O Mistério da consciência, divide a consciência em dois tipos: consciência central e consciência ampliada. Inspirados na tese damasiana, entende-se que a faculdade em pauta é constituída com uma espécie de anatomia, que pode ser dividida, didaticamente, em três partes:

  1. dimensão fonte – onde as coisas acontecem de fato, o aqui agora: o meu ato de escrever e dominar o ambiente e os equipamentos dos quais faço uso, o ato do internauta de ler, compreender a leitura e o ambiente que o envolve a todo os instantes, etc. Essa dimensão da consciência não retrocede muito ao passado e, da mesma forma, não avança para o futuro; ela se limita a registrar os atos presentes, com um espaço-tempo (passado/futuro) suficiente para que os momentos (presentes) tenham continuidade.
  2. dimensão processual – amplitude de sistema que abriga expectativas, perspectivas, planos e qualquer registros mental em aberto; aquelas questões que causam ruídos e impulsionam o ser humano à busca de soluções. Essa amplitude de consciência permite observar questões do passado e investigar também um pouco do futuro.
  3. dimensão ampla – região de sistema que, sem ser um dispositivo de memória, alberga os conhecimentos e experiências que uma pessoa incorpora na existência. Todo os conhecimentos do passado e experimentações pela qual o ser atravessou na vida: uma antiga profissão que não se tem mais qualquer habilidade para exercer, guarda registros importantes que servirão como experiência em outras práticas. Qual dimensão processual, esse amplitude da consciência permite examinar o passado e avançar no futuro – tudo dentro de limites impostos pelo próprio desenvolvimento mental do indivíduo.

Além da anatomia de constituição, listada acima, a consciência humana também guarda alguns estados:

Condições de consciência (vigília normal, vigília alterada e sono com sonhos), modos de consciência (passivo, ativo e ausente) e focos de consciência (central, periférico e distante).

 

Consciência, autoconsciência e autoconhecimento

 

Manfred Frank (em “Self-consciousness and Self-knowledge”, ver bibliografia abaixo) apresenta a relação entre consciência, autoconsciênciae autoconhecimento da seguinte maneira:

  1. Consciência pressupõe autoconsciência. Não há como alguém estar consciente de alguma coisa sem estar consciente de estar consciente dessa coisa.
  2. A autoconsciência é pré-reflexiva. Se a autoconsciência fosse o resultado da reflexão, então só teríamos autoconsciência após termos consciência de alguma coisa que fosse dada à reflexão. Mas isso não pode ser o caso, pois, como dissemos antes, consciência pressupõe autoconsciência. Logo, a autoconsciência é anterior à reflexão.
  3. Autoconsciência e consciência são distintas logicamente, mas funcionam de maneira unitária.
  4. O autoconhecimento—isto é, a consciência reflexiva ou consciência de segunda ordem—pressupõe a consciência pré-reflexiva, isto é, a autoconsciência.

De acordo com o esquema acima, a autoconsciência é o elemento fundamental da consciência. Sem ela não há consciência nem reflexão sobre a consciência.

 

Definições do senso comum

  • Ação do indivíduo ou grupo sem o intuito ou vigilância da área central de consciência.
  • Conjunto de processos e/ou fatos que atuam na conduta do indivíduo ou construindo a mesma, mas escapam ao âmbito da ferramenta de leitura e interpretação e não podem, por esta área, ser trazidos a custo de nenhum esforço que possa fazer um agente cujo sistema mental não possui o treinamento adequado. Essas atividades, entretanto, costumam aflorar em sonhos, em atos involuntários (sejam eles corretos e inteligentes ou falhos e inconsistentes) e nos estados alterados de consciência.

Definições concorrentes

  • Visão determinista: Alguns entendem o inconsciente como ações inconscientes baseadas em informações do passado, experienciadas ou noticiadas.
  • Visão reducionista: O inconsciente é entendido como um neologismo científico reducionista para não explicar ou negar os estados alterados da consciência.

Alterações da Consciência

 

  • Alterações Normais: Sono (é um comportamento e uma fase normal e necessária. Tem duas fases distintas, que são: sono REM -Rapid Eye Movement- e o sono NÃO-REM) e Sonho (vivências predominantemente visuais classificadas por Freud como um fenômeno psicológico “rico e revelador de desejos e temores”
  • Alterações Patológicas: qualitativas e quantitativas.
  • Quantitativas:

– Rebaixamento do nível de consciência: compreendido por graus, está dividido em 3 grupos principais: obnubilação da consciência(grau leve a moderado – compreensão dificultada), sopor(incapacidade de ação espontânea) e coma(grau profundo – impossível qualquer atividade voluntária consciente e ausência de qualquer indício de consciência).

– Síndromes psicopatológicas associadas ao rebaixamento do nível de consciência:

1. Delirium (diferente do “delírio”, é uma desorientação temporoespacial com surtos de ansiedade,além de ilusões e/ou alucinações visuais)

2. Estado Onírico (o indivíduo entra em um estado semelhante a um sonho muito vívido; estado decorrente de psicoses tóxicas, síndromes de abstinência a drogas e quadros febris tóxico-infecciosos)

3. Amência (excitação psicomotora, incoerência do pensamento, perplexidade e sintomas alucinatórios oniróides)

4. Síndrome do cativeiro (a destruição da base da ponte promove uma paralisia total dos nervos cranianos baixos e dos membros)

  • Qualitativas:

1. Estados crepusculares (surge e desaparece de forma abrupta e tem duração variável – de poucas horas a algumas semanas)

2. Dissociação da consciência (perda da unidade psíquica comum do ser humano, na qual o indivíduo “desliga” da realidade para parar de sofrer)

3. Transe (espécie de sonho acordado com a presença de atividade motora automática e estereotipada acompanhada de suspensão parcial dos movimentos voluntários)

4. Estado Hipnótico (técnica refinada de concentração da atenção e de alteração induzida do estado da consciência)

 

 

Desde que o homem começou a pensar, quer dizer, desde que começou a ser homem, uma silenciosa testemunha o vê pensar, gozar, sofrer e, numa palavra, viver: sua consciência. Mas que realidade tem a consciência, esse perceber o que fazemos, sentimos e pensamos?

Octavio Paz propõe que façamos uma analogia, tal como a usada por Mervin Minsky, uma das autoridades em inteligência artificial: o que chamamos de menteé um conjunto de partes diminutas como as partículas elementares que compõem o átomo; as forças que movem as partes que compõem a mente não são nem podem ser diferentes das que juntam, separam e fazem girar essas partículas. A analogia mais perfeita para a mente é, então, o circuito de chamadas e respostas em que consiste a operação de um computador. Mas faço uma outra analogia: essas pequenas partes lembram as peças de um quebra-cabeça; isoladamente não têm forma identificável mas unidas a outras vão compondo uma unidade, isto é, vão ganhando corpo e sentido. As partes que compõem a mente são móveis e, como as peças do quebra-cabeça, não sabem por que ou para que se mexem nem o que as move. Não pensam, embora sejam partes, e partes indispensáveis do pensamento. Afinal, as peças do quebra-cabeça são movidas por uma mão que sabe o que faz e para que o faz. Uma intenção inspira a mão e a cabeça do jogador. Mas no caso da menteparece que não há jogador: o eu desaparece, ou não se faz perceber pela própria mente. Já no caso de uma máquina, de uma inteligência artificial, ela não pensa, mas faz e reproduz a cadeia do pensamento sem que nada a oriente, isto é, sem uma intenção própria.

E não devemos nos esquecer, sobretudo, da relação que se dá entre a mente e o mundo ou, dito de outro modo, entre o sujeito e o seu objeto. Para que a mente comece a funcionar – na prática funciona as 24 horas do dia, incluindo as dedicadas ao sono – precisa receber um estímulo, interno ou externo. O número desses estímulos é praticamente infinito, de modo que uma possível inteligência artificial, para escolher aquilo que lhe interessa, deveria estar equipada com um seletor de objetos ou temas pensáveis que seja o equivalente ao que chamamos de sensibilidade, atenção e vontade. Essas faculdades não são puramente racionais e a segunda está impregnada de afetividade. Assim, umamáquina pensante teria de ser, além de inteligente, sensível. Na verdade, teria de se converter numa réplica exata de nossas faculdades: vontade, imaginação, entendimento, memória etc. Por outro lado, se a máquina pensante fosse também a réplica da mente humana, haveria de todas as formas uma diferença que não hesito em chamar de imensa: a mente humana não sabe que é realmente uma máquina nem tem consciência de sê-lo; a mente acredita numa “ilusão”: seu eu, sua consciência. No caso de uma máquina fabricada por um engenheiro, que classe de consciência poderia ter? Diante de um estímulo dado, a máquina pensante começaria essa série de operações que chamamos de sentir, perceber, observar, medir, escolher, combinar, desfazer, provar, decidir etc. Estas operações consistiriam em sucessivas uniões e separações, justaposições e divisões das partes que compõem a máquina até aparecer um resultado: uma idéia, um conceito. Mas quem realiza as operações que são o pensamento da máquina? Ninguém.

Parece que Descartes foi o primeiro que teve a idéia de ver a mente como uma máquina. Mas uma máquina dirigida por um espírito. O século XVIII concebeu o universo como um relógio manejado por um relojoeiro onisciente: Deus. A idéia de uma máquina que anda sozinha, que ninguém controla e que pode acrescentar, atenuar e mudar de direção a corrente que a move, é uma idéia do século XX. É um fato que podemos fabricar máquinas capazes de realizar certas operações mentais: os computadores. Embora ainda não tenhamos fabricado aquelas que possam se regular sozinhas, os especialistas dizem que não é impossível que logo consigamos isso. A questão é saber até onde pode chegar a inteligência dessas máquinas e quais podem ser os limites de sua autonomia. Para começar: a inteligência humana pode fabricar objetos mais inteligentes que ela própria? Se seguirmos a lógica, a resposta é negativa. Para que a inteligência humana criasse inteligências superiores a ela própria, teria de ser mais inteligente do que é. Trata-se de uma impossibilidade ao mesmo tempo lógica e ontológica. Quanto ao segundo ponto: os homens são movidos por seus desejos, ambições e projetos, mas limitados pelo poder real de sua inteligência e os meis de que dispõem. Quais poderiam ser as ambições e os desejos das máquinas pensantes? Só poderiam ser aqueles inscritos na sua fabricação por seu fabricante: o homem. A autonomia das máquinas depende, essencialmente, do homem. É uma autonomia condicionada, ou seja, não é uma verdadeira autonomia. Tanto o quebra-cabeça quanto a máquina dependem de um agente. E tem mais: a resolução do enigma que é o quebra-cabeça consiste em refazer uma figura; o jogador não inventa essa figura, mas a reconstrói a partir de seus diversos e diminutos fragmentos. Nos caso das inteligências artificiais que conhecemos, os computadores, ocorre alguma coisa parecida: suas operações obedecem a um programa, a um plano do operador da máquina. Em ambos os casos, o agente – eu, razão, alma, operador, qualquer nome – é indispensável. E assim é por duas razões: porque põe em movimento o aparelho e porque determina de antemão o campo e a natureza de suas funções e operações.

Uma autoridade sobre o funcionamento da mente humana, o neurologista Oliver Sacks, disse num artigo recente: “Se quisermos ter uma teoria da mente, como ela opera realmente nos seres viventes, terá de ser radicalmente diferente de qualquer teoria inspirada no computador. Deve ser baseada no sistema nervoso, na vida interior da criatura viva, no funcionamento de suas sensações e intenções, em sua percepção dos objetos, gente e situações, na habilidade das criaturas superiores para abstrair e compartilhar, por meio da linguagem e da cultura, a consciência de outros”. Ou seja: o modelo deve ser o próprio homem, esse animal que pensa, fala, inventa e vive em sociedades (cultura).

Uma teoria dessa natureza é a de Gerald M. Edelman, à qual o próprio Sacks dedicou um extenso e brilhante ensaio. A vantagem da sua teoria é o seu realismo: a mente deve ser estudada precisamente em seu próprio meio, o organismo humano, e em seu meio natural. Edelman explica que a mente começa a funcionar pela sensação em sua forma mais simples, que chama defeelings: frio ou calor, alívio ou constrangimento, doce e amargo, etc. As sensações implicam uma valoração: isto é desagradável, aquilo é gostoso, aquele outro é áspero, e assim sucessivamente até o mais complexo, como o sofrimento que também é alegria ou o prazer que é dor. As sensações são percepções embrionárias. Por sua vez, percepção é concepção; ao perceber a realidade imediatamente impomos uma forma à nossa percepção, a construímos: “cada percepção é um ato de criação”.

A idéia da natureza criadora da percepção, comenta Sacks, já aparece em Emerson. A verdade é que sua origem remonta à filosofia grega e era corrente na psicologia mediaval e renascentista. Corresponde à teoria vigente até o século XVII sobre a função dos chamados sentidos interiores: o bom senso, a estimativa, a imaginativa, a memória e a fantasia, encarregados de recolher e purificar os dados dos cinco sentidos exteriores e transmiti-los, como formas inteligíveis, à alma racional. A imagem ou forma que recebe o entendimento não é o dado cru dos sentidos. Na tradição budista também aparecem essas divisões, numa ordem ligeiramente diferente: sensação, percepção, imaginação e entendimento. Cada uma dessas divisões designa um momento de um processo que converte os dados e estímulos exteriores em impressões, idéias e conceitos; na sensação está presente a percepção que transmite esses dados à imaginação que os entrega, como formas, ao entendimento que, por sua vez, os transforma em intelectos. O processo criador das operações mentais não é uma idéia nova, embora seja nova a maneira como a neurologia moderna descreve e explica o processo.

Em cada um dos momentos dessa complicada série de operações – composta de milhões de chamadas e respostas na rede de relações neurológicas – aparece uma intenção. Aquilo que sentimos e percebemos não é unicamente uma sensação ou uma representação, mas sim alguma coisa dotada de uma direção, um valor ou uma eminência de significação. Como é sabido, a fenomenologia de Edmund Husserl baseia-se no conceito de intencionalidade. Husserl tomou essa idéia, modificando-a substancialmente, do filósofo austríaco Franz Brentano. Em todas as nossas relações com o mundo objetivo – sensações, percepções, imagens – aparece um elemento sem o qual não há consciência do mundo nem de nós próprios: o objeto já tem, no momento em que surge na consciência, uma direção, uma intenção. Segundo Bretano o sujeito tem invariavelmente uma relação intencional com o objeto que percebe; ou, mais claramente, o objeto está incluído na percepção do sujeito como intencionalidade. O objeto, qualquer que seja, aparece indefectivelmente como algo desejável, temível, enigmático, útil ou já conhecido etc. A mesma coisa acontece com as sensações e percepções de Edelman: não são meras sensações nem representações; são, como já disse, valorações. Acredito que é fácil extrair uma conclusão de tudo isso: a noção de intencionalidade nos remete a um sujeito, seja este a consciência de Husserl ou o circuito neurológico de Edelman. Contudo, Edelman se recusa a considerar a existência de um sujeito ao qual se pode atribuir a intencionalidade com que aparece o objeto. Não obstante sua negação do sujeito, Edelman se impressiona muito com “a unidade com que o mundo aparece diante do perceptor, apesar da multiplicidade de maneiras de percebê-lo que emprega o sistema nervoso”. Não fica menos impressionado com “as teorias atuais da mente que não podem explicar a existência de um elemento que integre ou unifique todas essas percepções”. Dilema delicado: de um lado, a negação do sujeito; do outro, a necessidade de um sujeito. Como Edelman resolve isso?

Para tornar mais compreensível sua concepção, Edelman usa uma metáfora: a mente é uma orquestra que executa uma obra sem maestro. Os músicos – os neurônios e os grupos de neurônios – estão conectados e cada executante responde ao outro que o interpelar; assim criam coletivamente uma obra musical. Mas, diferente das orquestras da vida real, a orquestra neurológica não toca uma partitura já escrita: improvisa sem parar. Nessas improvisações aparecem e reaparecem frases (experiências) de outros momentos desse concerto que começou na nossa infância e terminará com nossa morte. Entretanto, a improvisação requer sempre um plano. O exemplo mais imediato é o do jazz e o das ragas da Índia: os músicos improvisam com certa liberdade, mas dentro de um padrão e de uma estrutura básica. A mesma coisa acontece com as outras improvisações, sejam musicais ou de outra natureza. Trate-se de uma batalha ou de um diálogo de negócios, de um passeio no bosque ou de uma discussão política, seguimos um plano. Pouco importa que tenha sido traçado um minuto antes e que seja muito vago e esquemático – é um plano. E todos os planos exigem um planejador. E aí vem a pergunta: quem faz o plano da orquestra neurológica?

Como vemos, Edelman reconhece a dificuldade de explicar o funcionamento dos neurônios sem a presença de um diretor de orquestra, sem um sujeito. Com certa freqüência ele se refere ao sentimento de identidade, a um ser e uma consciência. Essas palavras designam as construções dos neurônios. O circuito neurológico não só constrói nosso mundo com os ladrilhos e pedras das sensações, percepções e intelecções, mas também constrói o próprio sujeito: o nosso ser e a nossa consciência. Para Edelman, o eu e a consciência são construções indestrutíveis, salvo por um transtorno do circuito neurológico: doença ou morte. O eu é uma construção e depende da interação dos neurônios. É um artifício necessário e indispensável: sem ele não poderíamos viver. Sem eu, não há liberdade de decisão. E sem liberdade –  dentro dos limites – não há ser humano…e… sem ser humano, não há consciência…e…sem consciência não há o fenômeno inquestionável do espírito, a anima que é sinônimo de vida consciênte, ou seja voltamos ao princípio…e talvez seja mais uma das questões indescifráveis do mistério da vida com suas questões tipo a galinha e o ovo…se alguém conseguir resolver, me avisa gostaria de fechar essa “lacuna” do conhecimento humano…kkkk !!!,-)

 

 

Consultando o manual de ciência chinesa, o Science and Civilization in China de Joseph Needham (vol. 1, p. 154), vejo que os termos “yin” e “yang” denotavam originalmente o lado sombreado e o lado ensolarado de morros e casas, e que em torno do séc. IV a.C. eles passaram a ter um sentido filosófico mais amplo, com o yin representando o escuro, fraco, feminino, noite, lua, etc., e o yang o iluminado, forte, masculino, dia, sol, etc. A meta dos filósofos do yin-yang era atingir uma vida humana com um balanço perfeito entre os dois princípios.

 

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