…um carnaval como nenhum outro até ali…!!!,-) #LavouEu?EntãoTôLimpinhoEláVouEU

…era uma sexta feira como essa de hoje, era uma sexta feira de carnaval, era uma sexta feira gorda…sim, gorda, ouviu:”JAVALI”…

Aquele ano anterior, tinha me sido abençoado, imagina que uma fábrica de jeans, o material que dominava tudo na moda do fim dos anos oitenta e início dos noventa. Era um projeto da extinta SUDENE, órgão do governo federal brasileiro que tinha como intenção desenvolver  a pobre e sempre carente região nordeste do país, como dizia em suas siglas; Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, funcionava mais ou menos assim na prática: famílias oligárquicas com ligações com políticos idem, descolavam vultuosas somas de dinheiro do governo federal para implantarem empreendimentos que diminuíssem os índices de desemprego da região sempre altos em se tratando de Brasil, sobretudo naquele estado tido como o mais pobre da federação brasileira, sendo um país rico como o nosso, essa alcunha pejorativa surpreende qualquer pessoa que inadvertidamente tenha a oportunidade de conhecer esse lugar especial em que morei durante alguns anos da minha vida, importantes anos inclusive, que giravam entre o fim da adolescência e o início da juventude, ainda no “esquema: escola, cinema, clube…e…(tchan tchan tchan!!!,-) televisão…”pois foi ainda na escola secundária, que eu já parando tudo nos desenhos de moda, coisa que faço desde que me conheço como gente…e…dizem meus país que já nasci assim…eu acredito, se eles me dizem isso…fornecia desenhos de roupas para todos os meus amigos na época, pois era muito comum se mandar confeccionar as roupas em vez de compra-las prontas, eram mesmo outros tempos, já existiam grifes, grandes e caríssimas grifes brasileiras inclusive, como: Zoomp, iódice, blu4, ocean pacific, yes brazil, etc…essa última era  talvez a mais cara de todas pois ainda não se viviam os tempos de ‘franchising’, pra se ter uma loja dessas era preciso ser filho de alguém muito rico que resolvesse comprar todas as coleções e vende-las em lojas tipo ‘boutique’ próprias com os nomes mais incríveis: “azagaia”, “ultra-aje”, “printemps”, outras levavam os nomes das próprias grifes…e…algumas eram identificadas pelos nomes de seus ricos proprietários que figuravam entre os jovens de sociedade mais badalados da cidade, ainda hoje nesse lugar, a que me refiro, existe essa tradição de se montar lojas de roupas para se “ascender” socialmente, depois de “asceso”, se fecha a loja e “corre pro abraço”…tradição que parece foi moldada a muito tempo com exemplos de vida não muito respeitáveis, mas isso é uma outra história…em sociedade, naquele lugar, era preciso antes de tudo se estar bem vestido, por isso quem não podia usar as grifes da moda, fazia suas próprias roupas na costureira da esquina, quase sempre influenciadas pelos figurinos das telenovelas da temporada, em escala tão fenomenal que gerava distúrbios em alguns executivos das televisões brasileiras, que completamente bêbados, chegavam, na época, a declararem a plenos pulmões nos salões dos hotéis franceses como o ‘Ritz’ em Paris que: “…no Brasil, até o comprimento das saias sou eu quem controlo…”, sempre que alguém o “media” querendo saber de quem se tratava tão desagradável criatura…oh, embriaguez de burrice que o poder causa…e…é nesse cenário que eu em tenra idade já podia me considerar um sucesso, tinha mais roupas minhas circulando pela cidade do que muito estilista tem hoje e sem nenhuma loja, só na base do: ”desenha um vestido de noiva pra minha irmã?”, o sucesso era tanto que uma tia minha um tempo antes me tinha levado a grande loja de tecidos onde ela paquerava com o gerente e mostrou o meu trabalho, comigo ao lado, depois de examinar os desenhos o gerente já interessado na minha tia, convidou-a para um jantar logo mais a noite e pediu que ela lhe trouxesse o autor daquelas maravilhas que ele o contrataria, quando ela disse que o autor era aquela criaturinha de 10 anos de idade, aparentemente invisível até aquela altura do papo de adultos, mas que já se sentia desafiadoramente confiante e determinado para alguém daquela idade, mas que saiu dali sem conseguir compreender porque eu não poderia trabalhar naquele lugar, se eu sabia fazer o serviço, só porque eu tinha 10 anos de idade, lembro que eu pedi a minha tia se ela não poderia trabalhar comigo, eu daria parte do meu salário pra ela me acompanhar durante a minha jornada, o que já mostrava o articulador soberbo que eu viria a me tornar um dia…um dia que chegou do nada como uma tempestade de verão, quando uma amiga de sala de aula me diz que o pai dela era representante da ‘Bangu Tecidos” uma importante tecelagem brasileira dos tempos anteriores a microfibra chinesa que abarrota o mercado hoje em dia, e que o pai dela tinha visto alguns desenhos meus e que queria me apresentar a um diretor de uma grande fábrica de jeans que iria começar a operar no segundo semestre daquele ano, e depois de combinado o encontro lá fui eu com o pai da minha amiga rumo ao encontro em que o poderoso diretor, na verdade um jovem egresso de uma das mais poderosas famílias oligárquicas da região, que recebera como ‘dote’ de casamento com uma filha de um senador da república, um desses “financiamentos’ da tal SUDENE, que consistia em agracia-lo com muito grana para a implantação de um polo industrial de confecções com capacidade inicial de produção de 2500 peças/dia… para isso foram treinadas todas as costureiras em cursos de formação todos com patrocínio federal, para a qualificação da mão de obra especializada que obviamente aquele lugar não possuía, gerando assim empregos e qualificação que aumentassem a renda e a taxa de ocupação dos habitantes dali. Mais uma vez me vi na situação constrangedora de ser perscrutado por estranhos… e… analizado o excelente trabalho o jovem diretor que viu em mim um “talento promissor” como ele disse, elogiou o mais que pode os desenhos, ficou surpreso com a minha falta de estudo específico, mas como aquele lugar ali era um lugar profissional, onde os estilistas que ali atuariam estavam sendo escolhidos no mercado do Rio de Janeiro e São Paulo, deixando claro que eu não serviria para o emprego por ser ainda um amador, que nunca tinha trabalhado na vida, lembrei dos meus dez anos e pensei se os sete ou oito anos que se passaram desde aquela primeira vez que busquei um emprego com minha tia, teriam sido diferente se eu tivesse começado a trabalhar lá naquela importante loja, uma coisa seria certa eu jamais seria tratado como somente o amigo da  filha do representante da Bangú Tecidos por mais chic que essa alcunha era para mim naquele lugar, quis ser tratado como profissional, visto pelos outros pelo meu trabalho e valor e não pelas ligações de amizade com essa e/ou aquela pessoa, enfim depois de muito rodeio o jovem diretor me dispensou dizendo que a fábrica só começaria a funcionar pra valer no segundo semestre pois só os cursos de qualificação estavam sendo oferecidos aos operários  e que se houvesse alguma necessidade de alguém com minhas qualificações eu seria contatado, eu já tinha vivido uma chance fracassada aos dez anos e decidi que não deixaria que isso acontecesse de novo e subitamente pedi então que ele me deixasse visitar a fabrica para ver como ela era de verdade pois do escritório gelado acima da linha de produção só podíamos ver tudo por uma vidraça tipo ‘baywindows’ que depois eu vendo do ponto de vista dos operários, parecia um aquário, enfim, depois da visita guiada pela linha de produção e todos os setores em companhia do diretor da fábrica e mais alguns funcionários que o chamavam de doutor o tempo todo, e que não entendiam o que aquele jovenzinho bem vestido estava fazendo ali…achei tudo fantástico, do barulho das máquinas de costura, as mesas enormes onde se cortavam os tecidos em múltiplas camadas e com instrumentos que nunca tinha visto antes…vendo minha surpresa, encantamento e alegria, o diretor da fábrica, não teve resistências quando lhe pedi com olhos de gatinho manhoso que me deixasse ficar mais um pouco ali…se ele concordasse eu poderia ficar por ali só pra aprender, já que nada sabia além de desenhar, nunca havia trabalhado, e tal, sensível aos meus apelos e incentivado pelo pai da minha amiga, ficou combinado que no outro dia eu poderia vir trabalhar, mas a título de experiência, sem salário, sem registro funcional, com crachá de “visitante” para não complicar as coisas com o ministério do trabalho, assim lá fui eu no outro dia feliz e retumbante, mudei meu horário de estudo para o turno da noite e passava o dia inteiro perambulando pela fábrica como um faz tudo, visto com reservas pelos outros funcionários pelo meu caráter experimental e proximidade com a diretoria, confesso que isso não me ajudava muito, mas como todos estávamos ali para trabalhar e não para sermos amigos, com minha eficiência e dedicação logo consegui o respeito de todos os operários e a confiança da diretoria, até conseguia resolver problemas que ninguém conseguia, como acompanhar a finalização de algum mostruário para envio urgente para algum representante comercial interessado em usar a fábrica para a produção de outras marcas nacionais, ficava a noite inteira na lavanderia coordenando os operários que viam em mim não um superior no comando mais um operário como eles disposto a tudo pra realizar um bom trabalho, que como não cansava de falar pra eles: “esse é o diferencial do bom profissional, a qualidade do seu trabalho, mesmo que seja apenas pra varrer o chão da fábrica…o melhor varredor de fábrica do mundo dizia eu empunhando a vassoura e recolhendo os fiapos de linha e tecidos do chão enquanto os outros operavam as caldeiras e prensas industriais sorrindo do que dizia, minha interação foi tanta que quando o departamento de estilo foi finalmente colocado pra funcionar com um trio dos mais experientes estilistas industriais do Brasil, um paulista, responsável por grifes de ‘street wear’ com a Sulfabril como ex contratante, um carioca que tinha sido parte da equipe de estilo da badaladíssima e cara grife dos Azulay, Yes Brasil/blueman e uma alemã depois ajudou a fundar a faculdade de moda do Ceará e que era responsável pela parte internacional da pesquisa de moda que trazia da europa e estados unidos as últimas tendências da moda índigo das feiras internacionais, junto com roupas de todos os lugares do mundo para a produção de protótipos e retirada de modelagem como se diz no jargão do meio. Só preciso dizer que trabalhei de graça durante três meses e ao final desse período já completamente a vontade com tudo e todos, sendo elevado de assistente de modelagem a assistente de estilo, enfim sai do setor industrial e “ascendi” para o andar de cima, para o “aquário” onde os cabeças da fábricas eram vistos quando as persianas não estavam fechadas…fui contratado com direito a salário digno, e o meu maior sonho, meu próprio crachá com minha foto e nome, agora sim eu me sentia como os outros funcionários, entrava junto com todo mundo pelo portão principal, batia o ponto e tudo…e…até podia fazer as refeições no refeitório como os outros funcionários do setor industrial onde comecei minha vida trabalhista, ninguém entendia minha satisfação em participar desse ritual operário, quando antes eu com meu crachá de visitante, entrava pela portaria reservada para os importantes, direto para o aquário onde uma sala de recepção com o pé direito de uns oito metros anunciava o chiquê da área restrita aos diretores e departamentos mais importantes como o de estilo e as super secretárias de executivos com seus perfumes característicos, que almoçavam na copa especialmente reservada para aquele setor, eu agora era o único ser daquele setor que tinha intimidade com os operários e diretores simultaneamente além do diretor industrial é claro que fora trazido de uma importante confecção industrial do Ceará e que andava sempre com um cassetete nas mão e era assim que ele circulava entre os operários, não preciso dizer que ele era temido, mas quase sempre quem conseguia dobrar os operários com meu jeitinho era eu, também não preciso dizer que eu representava uma ameaça ao tal diretor, pois afinal, como eles comentavam, eu era mais hábil em conduzir os operários quando preciso do que ele como diretor, mas eu fazia isso pela fábrica, não tinha interesses em passar por cima de ninguém, nunca fui afeito a essas coisas…quando ele deixou d me ver como uma ameaça aí o negócio ficou bom, eu fazia o que queria, os estilista só se reuniam na fábrica uma vez por mês para revisar as coleções e acompanhavam a produção de longe, via fax, faziam alterações nos croquis e todo o resto era feito por telefone, eu era o responsável pela comunicação direta com os estilistas e trabalhava ligado aos gerentes de produto coordenando as compras de aviamentos especiais e acompanhava de perto a criação das arte finais para o desenvolvimento de etiquetas, botões e ‘tags’ personalizados lidando com os prazos de entrega sempre atrasados que nos forçavam a fazer substituições de última hora que poderiam ser o motivo da recusa das peças pelo contratante, nesse caso o prejuízo era imenso uma vez que não se dispunha de locais para a venda das peças que estavam todas etiquetadas com as marcas contratantes no esquema de “facção”, por isso qualquer mudança teria que ser feita com muita segurança e cautela, coisa que eu tirava de letra, sempre que alguma peça tinha que ser modificada por que esse ou aquele elemento não estava disponível, eu fazia a simpática e ligava diretamente para os responsáveis das marcas e em tom amistoso os convencia que aquele tom de branco do tecido de tricoline da camisaria era muito comum, que tal se a gente alterasse para o tom ‘gelo’? depois de convencida a pessoa responsável e o protótipo ser enviado para aprovação via malote expresso, era só trocar a referencia nas fichas dos desenhos técnicos de branco 001, para gelo 007, pois o 008 era bege…normalmente isso acontecia por problemas no setor de compras e expedição que em tempos anteriores ao computador era uma coisa sofrida de se organizar…pois era nesse clima de total segurança e profissionalismo que eu e um amigo, enfermeiro tipo chefe de equipe num hospital de referência em transplantes renais no alvorecer desse tratamento naquele lugar, eu e esse amigo formávamos a dupla de profissionais imbatíveis e éramos reconhecidos e até invejado por nossos colegas, como é bom ser reconhecido pelo seu talento…então, nós dois ainda muito jovens e já bem sucedidos naquilo que decidimos fazer como profissão nos destacávamos dos nossos outros amigos que ainda estavam no esquema escola, cinema, clube e televisão, por isso em nosso primeiro carnaval com dinheiro, resolvemos fugir do grupo e passar um carnaval diferente, decidimos viajarmos para uma cidadezinha do interior onde o carnaval é muito concorrido e já era uma tradição e alternativa para quem queria fugir da capital e/ou da ‘muvuca’ do litoral com seus farofeiros, afinal nós queríamos um carnaval ‘cool’, sem muita gente conhecida por perto, como eu dizia:”…pra gente poder ser quem a gente quiser…”…e…numa sexta feira de carnaval como hoje, lá fomos de ônibus, leito, para a cidadezinha do interior, logo na rodoviária nos deparamos com as multidões de sempre em movimento durante essa festa tradicional, felizmente já havíamos reservado as nossas passagens via ‘fax’ que era o máximo da tecnologia naquelas priscas eras, um fax recebido era quase que um documento e dizer: “passa depois por fax pra mim…” significava ter acesso a uma comunicação restrita que só grandes empresários poderiam ter…depois, como tudo no mundo virou “carne de vaca” o termo “passar um fax” até virou sinônimo de fazer cocô…vou ali passar um fax…pois bem, ao chegarmos ao guichê da empresa de ônibus com filas quilométricas e toda a sorte de confusão, chegamos nós elengantíssimos e muito bem perfumados, passamos na frente  de todos pois como já tínha dito, havíamos reservado as passagens por fax…foi a primeira sensação de “vipeza” que tive na vida, ali naquela rodoviária cheia de gente, enquanto no guichê estavam vendendo passagens para os ônibus extras que sairiam com até 5 horas após o horário da compra devido a demanda muito superior aos dias comuns, nós fomos conduzidos ao nosso ônibus leito que praticamente nos esperava para sair, e depois de guardadas as bagagens entramos naquele caractístico ônibus com fileiras de três poltronas, a minha era em separado a do meu amigo em conjunto, pois ele arriscava que do lado dele poderia sentar algum gatinho, já eu temia uma gorda com uma criança no colo como me aconteceu uma vez, desde esse dia até em avião eu prefiro poltronas solitárias, deve ser meu gosto nato por primeiras classes…e…não é que deu certo? Um carinha lindo estava sentado na janela do lado da poltrona do meu amigo e ele fazia parte de um grupo de amigos, duas garotas e três garotos todos filhos de famílias tradicionais da cidade que estudavam na capital e estavam indo curtir o carnaval famoso na casa dos pais, levando alguns outros amigos da escola para conhecer a cidade, todos, como eles filhos de pessoas abastadas que estudavam na capital, logo que a viagem começou, como só tinham jovens no ônibus e era carnaval, o trajeto de 6 horas, sim era um pouco distante, esse longo trajeto foi encurtado pelas brincadeiras do grupo de amigos que contagiou todos no ônibus e logo a festa era coletiva, bebidas alcóolicas e/ou não eram servidas pelo serviço de bordo, pelas ‘rodomoças’, alguém pode imaginar que isso existiu um dia? Pois é, tudo estava muito animado quando na entrada da cidade uma blitz policial deixou nossos novos amigos em uma situação de ansiedade que nem eu nem meu amigo conseguimos entender, enquanto nós outros gentilmente oferecíamos nossas bagagens para a revista sorridentes para os policiais sérios como sempre, os garotos ficaram petrificados, logo descobrimos o porque de forma muito trágica com a prisão do mais gato de todos os nossos novos amigos, naquele ‘gravador’ um ‘micro sistem’, com duplo ‘deck’, de ‘continuos play’’ e dois alto falantes imensos que custavam uma fortuna e eram item de desejo de 10 entre 10, junto com os ‘walkmans’ na época, pois naquele gravador que funcionava com uma carga de 8 ou 12 pilhas grandes não lembro bem, pois só então entendi porque o gravador não tocava música, no lugar das pilhas estava uma quantidade de maconha, coisa que eu nunca havia visto de perto, e enquanto eu queria me aproximar da confusão pra ver a tal da droga maldita, que nunca fez parte da minha vida nem círculos de amigos até então, mas já me fazia aguçar a criatividade quando diziam que você “vira outra pessoa”, ao fuma r aquilo, quando eu queria saber o que acontecia quando se fumava aquilo…meu amigo tremia por pensar que todos poderiam ser presos no ônibus e que se ele fosse envolvido de algum jeito era capaz de perder o emprego no hospital…enquanto eu tentava acalma-lo dizendo que isso não ia acontecer afinal nada tínhamos com isso, mas no fundo eu tinha o mesmo medo, pois estávamos na farra com eles desde o início da viagem…passado o susto, chegamos ressabiados na rodoviária da cidadezinha já em festa e enquanto os nossos amigos eram esperados por seus familiares e levados para suas fazendas e/ou casas da cidade de suas famílias, nós depois do distúrbio causado pela prisão do dono do ‘gravador’ que assumiu sozinho o porte de drogas, mesmo sendo de consumo de todos, como viemos a saber depois. Tentamos um táxi, por não conhecermos a cidade mas não encontramos no meio daquela confusão nossos amigos novos nem tiveram cabeça para nos oferecer carona e nem nós de sugerirmos isso, pois já estávamos satisfeitos com o tratamento que recebemos deles todos, mesmo sabendo que éramos gays assumidos. Deveria ser umas nove horas da noite quando chegamos, por não termos conseguido nenhuma hospedagem ‘via fax’, começamos a indagar sobre alguma pensão disponível no guichê da empresa de ônibus, que não nos animou muito, pois disseram que era muito difícil aquela altura pois a cidade estava lotada, nós dois nunca tínhamos saído assim de casa, a incerteza de nossa hospedagem a confusão na cidade naquela noite que deixava claro que o carnaval havia começado e o roteiro que nossos amigos nos tinham dado sobre as festas e lugares mais legais, além da falta de um táxi que pudesse nos levar a alguma hospedaria e/ou pensão resolvermos sair andando com nossas mochilas nas costas, compradas especialmente para esse fim pois já imaginávamos que poderíamos passar por isso naquele lugar, tantos eram os relatos de alguns conhecidos que chegavam a passar o carnaval inteiro dormindo quando dormiam, nos bancos da praça numa realidade sertaneja tipo Bruno e Marrone, descendo pelas ruas de pedras, indo na direção do que nos diziam ser a direção do centro, saímos andando e indagando sobre hospedagem aos simpáticos moradores elevados a categoria de foliões pois toda a cidade fervia alegremente, com os sons e cenas características dessa festa em qualquer lugar do Brasil por essa época, chegaram a nos indicar um cabaré onde a dona alugava os quartos das putas para os turistas já que por aqueles dias o movimento de atendimento das meninas se transferia para as ruas, nos blocos ou para os salões dos clubes tradicionais que nesse período aceitava a presença e entrada destas damas da noite, o lugar era típico de uma casa desse tipo, mas por falta de um lugar onde pudéssemos deixar nossos caros pertences em segurança resolvemos abortar o aluguel do quarto e saímos outra vez sem destino mesmo com os avisos da dona do cabaré que nos dizia que nós deveríamos seguir seu conselho e aceitar sua oferta pois “gente assim como vocês, não serão muito bem vindos na cidade…” , “gente assim” significava: VIADOS… já um pouco derrotados em nossa primeira grande aventura, e quase arrependidos dessa feita e um pouco antes de tomar o próximo ônibus ‘executivo’ para a capital pois leitos só amanhã, resolvemos como última tentativa ver se encontrávamos algum amigo do ônibus, pois com a cidade pequena daquele jeito não deveria demorar muito, meu amigo dizia que com certeza eles nos ajudariam, eu meio envergonhado de pedir favores a quem acabamos de conhecer, concordei e sentamos em um bar do centro da cidade lotada de foliões que ficavam zanzando em volta de uma praça típica de cidade do interior com aquele caixote de metal no meio onde alguém toda noite, em dias comuns claro, abria sua tampa e ligava uma tv preto e branco para uma pequena multidão de senhoras meninos e mocinhas ficavam a assistir as novelas sob os olhares dos senhores e rapazes, naquela confusão nossas mochilas não chamaram atenção mas o peso nos fez ficar sentados mais tempo do que pretendíamos e quando finalmente entendemos que passaríamos a noite ali naquela calçada daquele bar em volta da praça lotada onde um palco e umas bandas tocavam musicas do recente fenômeno da musica baiana o ‘axe music’, ainda em tempos  de Luís Caldas e chiclete com banana sendo novidade…pra você ver como faz tempo isso…por volta das duas horas da madrugada, nós já animados e sem nenhuma preocupação com hospedagem pois sentimos que poderíamos ficar por ali em segurança até o amanhecer  quando poderíamos tomar outro ônibus de volta pra casa onde combinamos ficar escondidos até o final do carnaval para não denunciarmos nosso fracasso na nossa primeira aventura…quando de repente não mais que de repente um cara muito falante e um pouco ébrio, como todos os foliões característicos, e que nos olhava de vez em quando de onde estava sentado com seu grupo de amigos, até já tínhamos comentado sobre os olhares dele e decidimos que deveria ser só curiosidade, afinal não era todo dia que duas “celebridades” como nós aparecia por ali, tamanho era nossa diferença intencionalmente programada com nossas roupas, sapatos, cortes de cabelo e bagagens ao lado da mesa, e brindávamos e ríamos, até que nos vendo celebrar o rapaz resolve se aproximar pede um cigarro e pergunta: você é amigo do Paulo Motta? Só para esclarecer Paulo Motta, mas conhecido por Paulo Motta, como ele mesmo gostava de dizer era um ícone da juventude gay da capital, oriundo de uma das famílias oligárquicas mais importantes num tempo em que o sobrenome vinha antes do dinheiro que sem sobrenome não valia muita coisa, como as coisas mudaram de figura…Paulo Motta, foi um libertário para seu tempo assumiu sua condição homossexual com o apoio dos pais, gente esclarecida e tão tranquilos com sua posição de destaque na sociedade da capital que logo se tornou célebre e icônico para sua geração…nós sabíamos quem era Paulo Motta, mas não éramos amigos tínhamos até amigos em comum, mas ele representava o topo da cadeia alimentar dos gays da capital, era dele o trono, isso todos reconheciam, e como ele era extremamente educado com todos, nem inveja ele despertava em seus súditos, sim era assim que ele circulava pela cidade, com sua ‘enturrage’, sabe aquele tipo de pessoa que pode chegar em qualquer lugar, que ele se dá bem? Ele conhece todo mundo, e os que ele não conhece com certeza conhecem ele, enfim um LUXO o viado. Esclarecido o assunto quem é Paulo Motta, soubemos por Aírton, esse era o nome do rapaz que Paulo Motta, já havia passado um dia de carnaval na cidade e que depois a gente entendeu que o rapaz só nos havia indagado sobre a outra, por que éramos gays…olha que lugar e tempo maravilhosos, hoje ninguém te pergunta isso só por isso…realmente, pouquíssimas pessoas podiam se dar ao luxo de se revelarem homossexuais, principalmente em tenra idade como nós, a não ser os muito de vanguarda e/ou os financeiramente independentes como nós já naquela época…depois de todos bêbados e já quase ao amanhecer e com o meu amigo ansioso por traçar o Aírton, que era tipo a ovelha negra da família também tradicional e oligárquica, mas, que não liberava um tostão para o filho tido como o vagabundo, além de, apesar dos estragos da vida inconsequente que ele levava, era um homem bem charmoso e eu diria quase bonito, não fosse o jeitão largado demais que me agradava muito, mais infelizmente já tínhamos decidido que esse era de meu amigo, o próximo seria meu, acordo entre predadores contumazes sexualmente ativos em época de carnaval, uma vez quando eu já tinha arrumado o meu e meu amigo não conseguiu se agradar de ninguém além do que eu tinha conseguido, nós até dividimos um “pão” ou quase isso, mudando só o “ó” para “u” e sumindo com o”til”…nosso primeiro ‘menage a trois’…coisas das despreocupadas e orgíacas folias de momo pré expansão viral do HIV, embalados somente por muito álcool até ali, bons tempos aqueles…quando o dia começava a raiar a necessidade de predador de meu amigo e o estado alterado de Aírton, que facilitava muito a situação resolvemos pagar a conta e pedindo para que o comerciante guardasse nossas mochilas, pedido feito e atendido de pronto por se tratar do “Airtinho” como dizia o senhor, feliz com a nossa consumação ali no bar, que ficou em torno de uma pequena fortuna onde pudemos mostrar todo o nosso potencial financeiro, fazendo com que a nossa condição de homossexual ficasse reprimida entre as cédulas de dinheiro que poderíamos gastar onde fôssemos aceitos, felizmente era carnaval e essas disposições normalmente são suspensas por alguns dias…”Airtinho” louco de tesão e meu amigo também, fomos até uma rua um pouco afastada do centro numa área mais simples, com casas não tão antigas como as do centro da cidade que lembrava um misto das cidades coloniais, mineiras, bahianas  e goianas do centro do brasil, a diferença era a largura das ruas de pedras, que eram mais largas do que costumam ser nessas cidades antigas…chegamos a uma casa, fechada, aparentemente sem ninguém, dessas que ficam ao nível da rua, com janelas e portas de folhas duplas com frontais trabalhados com eira e beira nos telhados coloniais, Aírton, nos disse que a casa estava vazia e que pertencia a família dele que não alugava para turistas pois sempre tinham problemas depois…tão logo ele conseguiu arrombar uma janela lateral nós entramos por ela e nos deparamos com uma casa imensa e vazia, daquelas em que cada ambiente se liga diretamente ao outro por portas altas e duplas, igual a casa da minha em que eu nasci, pra se chegar ao meu quarto de bebê era preciso passa pelo quarto da minha vó que tinha portas em todas as quatro paredes laterais que levavam aos outros ambientes, quando meu avô e minha vó se deitavam pra dormir, xixi só no penico…ou saindo pela janela…me senti em casa e enquanto eles resolviam suas “pendências” eu examinava o local, chão de tábua corrida, teto alto sem forro, que mostrava o complicado madeiramento que sustentava o telhado, mais pra trás um pátio aberto com alpendre que dava para um lindo jardim com roseiras ladeado por um corredor coberto que levava a cozinha com fogão a lenha e tudo, completamente aberta para o pátio do jardim que tinha até um pequeno pomar e um aviário abandonado pelos pássaros, muitas folhas secas se acumulavam nesse pequeno quintal dos fundos e um grande banheiro em separado finalizava a construção e a separava da casa vizinha dos fundos, mais moderna e teria sido construída  depois com o fracionamento do lote que já foi do tamanho do quarteirão inteiro, mas que foi sendo vendido conforme a necessidade se fazia presente…quando enfim eles conseguiram se desamarrar, eu já tinha varrido todo o jardim e o quintal, reunindo as folhas secas e galhos em um canto para sua retirada posterior, assim que eu encontrasse com o que retirar, percorri os 8 quartos e não encontrei nenhum saco ou coisa que o valha e na volta encontrei o agora casal, saindo feliz do banheiro, logo de cara perguntei se a família dele não nos alugaria a casa até o final do carnaval, meu amigo, que já tinha sugerido isso entre gritos e sussuros  que pude ouvir muito bem no final da sessão de kamasutra dos dois, ele prometeu que tentaria, mas nós teríamos que ir conversar com os pais dele pois ele não “apitava” em nada na família, coitadinho…quando ele viu meu cuidado ele entendeu que teríamos responsabilidade pra cuidar do antigo imóvel, e se animou em nos levar até sua casa, nos advertindo de falar somente que éramos amigo de Paulo Motta e que ele recomendou que procurássemos Aírton para ver se ele arrumava alguma coisa, quando chegamos até a casa dos seus pais, um lugar parecido com o anterior só que maior e mais imponente, com um comercio na lateral que ele nos disse ser um pizzaria do seu cunhado, casado com sua irmã mais velha, que com a confusão do carnaval estava aberto e repleto de clientes, como ainda nem tínhamos dormido, resolvemos continuar a gastança no comercio do cunhado de Aírton, que nos recebeu com os braços abertos, afinal amigos de Paulo Motta, são nossos amigos também, parece que a “paulette” como era chamada na intimidade pelas outras bichas da capital, tinha arrazado por ali, a julgar pela consideração que todos tínham por ela, e bastava a “insígnia” de amigos do Paulo Motta, o que nem verdade era, até ali, nos abria todas as portas…bebemos o quanto pudemos comemos o quanto podemos e gastamos o quanto quisemos, munidos de nossos talões de cheques que reinavam absolutos como forma chic de pagamento, quando precisávamos de dinheiro em espécie, pagávamos a conta com valor a mais que o comerciante nos devolvia e assim mostrávamos todo o nosso potencial financeiro…cheque ouro…sem chances de ser recusado, ainda por cima de amigos de Paulo Motta, enunciado que se fazia presente sempre que alguém nos era apresentado e que nos conferia o maior status, eu e meu amigo secretamente combinamos que teríamos que dar um jeito de nos tornarmos amigos de verdade do Paulo Motta, assim que puséssemos os pés na capital, pois Aírton já comemorava o sucesso das farras que ele faria na capital hospedado na casa do meu amigo e as custas do dinheiro dele também, claro… fato que realmente depois ocorreu, deixando meu zerado, pois o “bofe” não teve pena do coitado do meu amigo, só carro alugado ele bateu dois, completamente bêbados os dois pela noite da capital…depois só taxi…numa lua de mel que nos afastou durante um tempo, até ele resolver se separar do “boy magia” que quase se tornou um problema na vida do meu amigo…mas a história é o carnaval, quando enfim o pai de Aírton não concordou em nos ceder a casa para temporada, mesmo sendo invocado o santo nome De Paulo Motta em vão, e nós começamos a tentar achar outra solução para nossa hospedagem na cidade lotada, pois como dizia meu amigo completamente apaixonado já no sábado de carnaval o que vem a corroborar com as histórias de paixões fulminantes nessa época festiva, que muitas vezes viram cinzas junto com o raiar do dia na quarta feira…mas essa do meu amigos se estendeu por nove longos meses a seguir, deixando um rastro de confusão tão grande que a separação foi como um parto onde quem nasceu de novo foi meu amigo, agora ressabiado com os amores, sobretudo os de carnaval e que passou a adotar o hábito de somente ficar, como se faz hoje, levou quase uma década para ele conseguir se deixar levar por um outro amor de novo, mas em compensação está casado até hoje…e….feliz, quem sabe qualquer dia conto a história dele também…quando íamos sair em busca de outro lugar eis que chega a irmã mais nova de Aírton que ainda não conhecíamos e para a surpresa geral da nação era Ivana, uma amiga de escola muito amiga da filha do representante de vendas da Bangú tecidos, e que tinha me arrumado meu primeiro emprego na vida, que bom que achamos alguém que conhecemos e verdade, inclusive aí foi que Ivana me apresentou aos seus pais como seu amigo de escola, que desenhava os vestidos dela e das irmãs, até trouxe uma pasta onde ela guardava os desenhos, o vestido de noiva da irmã mais velha tinha sido desenhado por mim para o casamento do ano naquela cidade, aí com esse reforço no nosso estatus, ganhamos de graça a possibilidade de hospedagem assim que o irmão do seu pai que morava na fazenda chegasse e concordasse em dividir o espaço conosco, pensamos que viria com sua família afinal como poderíamos pensar que se tratava de um jovem senhor na flor dos seus 40 e poucos anos, rude como o campo sugere que sejam os que nele labutam e fortes como precisam ser para aguentar o tranco do trabalho, só que ele era solteiro, rapaz velho como se dizia, a essa altura, Ivana já tinha nos cedido o velho jipe azul que ela usava pra se locomover que havia sido de seu pai antes que ele deixasse de guiar por um problema de catarata que o impedia de enxergar direito…ganhamos até um motorista, que assim pode ficar conosco o tempo inteiro sem que as pessoas começassem a comentar o caso do enfermeiro com o filho do Geraldo Bastos, assunto que nos meses seguintes ocupou a boca e ouvidos do pessoal da fofoca, mas isso é também outra história, nessa história saímos sem rumo no velho jipe azul, infelizmente sem a companhia da minha amiga Ivana que havia ficado pra ajudar na pizzaria pois realmente o movimento estava uma loucura,  lá fomos nós, em todos os lugares que tinham movimento nós passamos, Aírton me apresentou um amigo pra ver se rolava algo mas nada aconteceu, acho que o cansaço da viajem e o fato de não termos dormido ainda e estarmos bebendo sem parar interferiu nos meus desejos que preferiam uma boa cama pra dormir em vez de outras coisas, já meu amigo feliz com o sucesso da sua conquista, assim ele julgava na época, ah, os amores em seus inícios…quando enfim não consegui mais aguentar o peso do cansaço, passamos no bar do centro e pegamos nossas bagagens, rumamos para a casa vazia, entramos pela janela outra vez, eu tomei um longo banho enquanto eles foram até a casa dos pais de Aírton ver se arrumavam algumas redes para que eu pudesse dormir, eu nem precisava de tanto conforto, o chão mesmo me serviria tamanho era o meu cansaço, dormi instantaneamente depois do banho, tendo o cuidado de forrar o chão com uma grande e felpuda toalha que havia na mochila do meu amigo já que a minha estava molhada…acordei aos poucos com um sensação de que alguém me observava pelas costas, como estava de bruços, voltei-me e deparei um pouco assustado com um senhor de chapéu de abas largas, barba por fazer, em jeans surrados  e camiseta de propaganda de campanha eleitoral de um candidato local ao cargo de prefeito ligado a família Bastos, sim esse era o sobrenome do povo, logo de cara ele me disse: “achei que fosse dormir pra sempre, Aírtinho e seu amigo (eles achavam que eu e meu amigo éramos um casal e airtinho ficava livre dos comentários…por enquanto…!!!,-) saíram daqui já faz um bom tempo, eles tentaram lhe acordar mais eu disse deixa o menino dormir, hoje ainda é sábado, se ele dormir até amanhã ainda terá muita festa pela frente…” era verdade, o tratamento de “menino” que me deu aquele senhor talvez uns vinte e poucos anos a mais que eu, me deixou a vontade subitamente e quando me virei vi que tinham algumas outras coisas na casa, algumas caixas, uns fardos de lenha, pro fogão, e alguns utensílios de cozinha, ele perguntou me se eu tinha coragem pra ajudar a descarregar a caminhonete que ele viera da fazenda pois tinha umas coisas que precisavam de quatro braços me vesti direito, pois estava só de shorts, e fui lá pra fora onde seu Wilson já me esperava para descer uns caixotes com frutas da fazenda, umas rapaduras que eram feitas lá também, além de alguns potes grandes de doce de buriti e outras frutas regionais, pencas de bananas, carne seca, e até umas sacas de farinha e algumas franguinhas “de leite” com dizia seu Wilson e que não fazia nenhum sentido pra mim…depois de tudo arrumado e as franguinha de leite no aviário antes vazio, ele perguntou me se eu queria comer alguma coisa, “porque saco vazio não para em pé…” me senti imediatamente envolvido por aquele gentil senhor, coisa de filho de pais separados que cresceu sem a presença masculina constante… fomos até a cozinha onde o fogão a lenha já estava em funcionamento espalhando o seu cheiro de fumaça característico e numa frigideira de ferro ele nos preparou alguns ovos caipiras que comemos com pão e café, com direito a manteiga batida a mão…que delícia enquanto eu comia devorando tudo como um esfomeado ele me olhava de um jeito esquisito, como se estivesse achando engraçado meu jeito de ser e perguntava-me sobre onde eu morava o que fazia e essas coisas que queremos saber para nos certificarmos que a pessoa e confiável ou não, ao que eu ia respondendo ele ia me servindo mais café no bule antigo, chamuscado pelas chamas do fogão a lenha que aquecia e iluminava o ambiente já que a casa não tinha luz elétrica, quer dizer tinha mais estava desligada pra que ninguém entrasse lá quando estava vazia e sem ninguém e usufruísse dela, gerando encargos na conta de luz do fim do mês, me dizia que essa casa era a casa dele quando ele foi casado, eu perguntei pela sua esposa ele fez um bico com os lábios e depois os cerrou fortemente  como se quisesse xingar alguém e depois subiu no parapeito que separava a cozinha do quintal sentou-se pois não tínhamos cadeiras por ali, já até tinha me arrependido de ter perguntado sobre a sua esposa quando ele respondeu que ela tinha morrido… no parto… enquanto ele estava fora, na fazenda separando boi no pasto pra levar pro matadouro municipal que era como ele ganhava algum dinheiro extra… ela havia escorregado em uma poça de lama e entrado em serviço de parto, no hospital do munícipio uma parteira, sim era assim que as coisas aconteciam por ali naqueles tempos, uma parteira fez o parto de urgência mas o bebê uma menina havia nascido morta pelo cordão umbilical que estava enrolado no seu pescoço…a tristeza pela perda da filha e uma infecção por restos de placenta que ficaram alojadas no útero a levaram poucos dias depois…e…isso a vinte e oito anos atrás…quando ele tinha um pouco menos idade que eu agora…ele me contou que ela era linda e que eles sempre tinham sido namorados desde a infância e que se casaram muito cedo porque ele havia a desonrado… depois ele me disse que tinham feito isso pra poderem se casar já que os pais dela não aprovavam a ligação deles porque ele era assim “como o aírtinho” que era o sobrinho preferido dele e era o único da família que se parecia com ele…por isso ele era assim daquele jeito…entendi essas palavras como sendo ditas pra que eu percebesse que ele gostava de farra e festa e não tinha muito compromisso com a vida…então eu percebi que algo tinha mudado nele, ele estava abrindo o seu coração para um desconhecido, gay, vinte e poucos anos mais jovem que ele e isso para mim não fazia o menor sentido, mas me deixava contente, olhei de novo para ele enquanto me contava sobre sua vida, só que com um olhar mais apurado…e….sim, ele era muito atraente, sobretudo quando tirou um pacote de fumo e passou a enrolar um cigarro de palha… acho que ele percebeu que eu o avaliava e sorrindo ele me perguntou sobre essa coisa de dois homens juntos, se eu não tinha ciúme de deixar o meu amigo com o sobrinho dele? E completou: “aírtinho não é flor que se cheire…se der entrada ele “cai pra dentro”- eu enrubesci na hora, e disse um pouco nervoso que meu amigo era quem deveria sentir ciúmes de mim por ter me deixado ali com ele, tentando em vão manter a farsa do nosso namoro, pra salvar o “aírtinho” como ele dizia e que de “inho” não tinha nada como me comentou meu amigo mais cedo… por isso a louca paixão…ele deu uma gargalhada gostosa e disse que ele não era mais de nada que estava velho demais pra esse “vício do homem”…pulou no chão, tirou uma garrafa escura de um dos vários cestos de palha onde estavam, eu soube depois, a cachaça de alambique que ele fazia, o mel de abelha, e alguns queijos curados enrolados em folha de bananeira que ele colocava em cima do fogão a lenha para aquecer e quando a gente cortava ele parecia um requeijão de tão macio…ele pegou uma garrafa de cachaça abriu a rolha, deu um longo gole a boca da garrafa perguntou se eu queria, eu disse que nunca havia tomado cachaça, que mal bebia cerveja e era verdade, enquanto meu amigo era um “pé de cana” como o Aírton, eu somente bebericava o que me tornava sempre a pessoa consciente da turma…ele dizendo que: quem bebe cerveja bebe cachaça, passou a garrafa pra mim que exitei, então servindo na caneca de louça que eu acabara de tomar café ele me entregou e disse vira tudo de uma vez “cabra” e mostra que tu é homem também…porque pra gostar de macho tem que ser muito macho também…eu falsiando a voz disse: à controvérsias…me sentindo confortável ali com aquele senhor falante, gentil, e totalmente a vontade comigo ali sozinhos naquela escuridão bruxuleante pelas chamas das lamparinas de querosene que estavam presas as paredes antigas e grossas…dei um gole imenso incentivado pela minha “macheza” provocada e a sensação de liberdade que as pessoas sem preconceito conseguem nos fazer sentir…juro que achei que tinha algo mais naquela bebida, tudo rodou, e uma queimação me desceu a garganta levando lagrimas aos meus olhos e um sorriso na boca de dentes perfeitos daquele homem rústico que me fitava agora com olhos de quem está querendo alguma coisa…nisso uma algazarra invade a casa e meu amigo seguido de Ivana, Aírton e mais um grupo de rapazes e moças com sacolas e mochilas entram e logo de cara a Ivana vai dizendo: “Tio will, trouxemos também mais alguns amigos pra fazerem companhia pra vocês, eram ao todo umas 12 pessoas, cinco homens e seis mulheres, todos jovens e inclusive um garoto que tinha estudado comigo e com a Ivana também, um pouco antes de eu ter que mudar meu horário para a noite por causa do trabalho…enquanto todos se apresentavam e tio will o dono da casa oferecia café e/ou cachaça para todos, Ivana e Aírton instalavam todos em seus lugares a casa vazia tinha 14 comodos entre salas, salões e quartos, ou seja lugar de sobra para aquelas pessoas que conosco transformaram a casa numa república e até o fim do carnaval iria abrigar umas trinta e cinco pessoas, que se tivessem pago algum dinheiro pela hospedagem tinha até rendido um bom dinheiro. Depois de todos instalados, saímos todos para os bailes da vida, menos tio will que ficou arrumando as coisas que tinha trazido e emprestou a caminhonete pra Ivana levar o parte do grupo que não cabia no jipe, então no sábado de carnaval pontualmente a meia noite como mostrava o relógio da igreja matriz, nosso carnaval começou, como qualquer um outro, com muita animação e folia, gente bêbada, e tudo aquilo que esperamos de uma noite animada menos uma a paixão de carnaval como a do meu amigo, tá bom, não precisava ser assim igual a dele, mal sabia eu e ele onde ele se metera, porque como disse tio Will, Aírton não era de brincadeira, e ele estava falando sério, só nessa noite foram uma três confusões de briga em que ele se meteu e meu amigo achando o máximo o “garanhão” brigão dele…eu me contentei em ficar com minha amiga Ivana que estava solteira como eu e não estava muito afim daquele povo…ela sempre fora seletiva, lembro que no recreio eu era o único garoto da nossa turma de amigos, e sempre que queríamos agregar mais alguém Ivana era contra, aliás em tudo ela era do contra, trabalho em grupo com a Ivana, só dava certo se ela fosse a que decidia tudo, se não…sem chance de dar certo ela sempre encrencava, enquanto nos lembrávamos do nosso “tempo de escola” como se já fizesse muito tempo, afinal ainda estudávamos não mais juntos na mesma sala e horário mais na mesma escola, o que de certa forma nos ocupou com todas as informações que tínhamos pra trocar, quem casou, quem engravidou, quem deixou de estudar, quem morreu, sim a diretora da escola tinha falecido recentemente, entretidos no nosso papo a noite passou rápido…e durante esse tempo nossa rotina era  mesma. Ficar na rua bebendo e procurando bloco de carnaval durante o dia até não aguentar mais, e a noite ir pros bailes dos clubes onde a gente podia se esmerar um pouco mais no visual, encontramos com o pessoal do ônibus e o mais animado era o garoto que tinha sido preso por porte de maconha, já solto pelo pai vereador, Marcelo esse era seu nome, quando me viu com Ivana, fez questão de nos cumprimentar, entendi que eles tinham um casinho, mas a família dela não queria o namoro por causa das drogas e tudo mais, mas era ele o ‘playboy’ mais cobiçado do pedaço, posto que já havia sido de Aírton e tantos outros que iam surgindo pulando carnaval no salão e a Ivana ia me mostrando, tentando não encarar o Marcelo que de onde estava não parava de olhar pra ela, eu fiquei de cupido na história e quando numa ida ao banheiro o gato me pediu pra arrastar a Ivana pra fora do salão pra tomar um ar pra eles poderem se falar sem que toda a cidade visse, pois com o acontecido um dia atrás o garoto só entrou no clube porque era filho de vereador, então lá fui eu carregando a Ivana pro jardim externo do clube típico de cidadezinha pequena, já lá fora encontramos o Marcelo que nos levou para o fundo do clube onde ficava um depósito de engradados de cerveja e sem ninguém por perto, aí ele tira um cigarro de maconha acende e oferece pra Ivana que diz para mim: ”você não está vendo nada…” eu cruzando os dedos sobre os lábios comecei a rir e a me preparar pra experimentar aquele “fruto proibido”, morrendo de medo e ansiedade…logo que ela perguntou se eu queria e eu aceitei, dei alguns tragos, nada senti além do gosto de mato, sei lá…não achei que devia me preocupar pois não vi nada demais, continuava consciente como sempre, somete quando meu amigo foi nos procurar e nos encontrou é que pude perceber nele a minha diferença, a cara que ele fez ao me ver, parecia que eu era uma outra pessoa, tudo me fazia rir e pela primeira vez na vida perdi a minha inibição característica que nem o álcool parecia romper, subitamente a música da bandinha de carnaval que tocava no clube, me chamou e quando vi era a pessoa mais animada do baile, sorrindo e gargalhando cumprimentava todo mundo, ganhei cerveja e até um beijo na boca de uma garota mais louca que eu, e que me fez lembrar da vontade de encontrar alguém pra ficar…me senti meio desorientado e tentei encontrar todo mundo mais não conseguia, fui ficando agitado, temeroso, me senti abandonado, tive medo…e…resolvi sair em busca de alguém conhecido, não encontrei ninguém, resolvi sair do clube e ir até onde tínhamos deixado o carro, que também não encontrei, com o senso de orientação avariado consegui me localizar e pensei tenho que voltar pra casa antes que eu passe mal na rua, assim fui lembrando do caminho e junto com as pessoas animadas nas ruas e os vendedores ambulantes fui me localizando  até que consegui achar a casa de tio Will, bati na porta e nada, tentei abrir e nada, fui até a janela lateral e estava destrancada, não tive dúvidas e pulei quase me esborrachando no chão que parecia de borracha, me fazia quicar enquanto caminhava pela casa escura e vazia, pelo corredor que levava par os fundos da casa eu vi uma luz de lamparina acesa, segui o lume e ele vinha do banheiro no final da casa, que bom deve ter alguém pensei, ao me aproximar vi tio Will tomando banho com a porta entreaberta…parei de respirar, e vi uma coisa que me deixou com muito tesão…agora eu entendia o que ele queria dizer com aquela história de o sobrinho ter sido o único que saíra ao tio…o que era aquilo…e o corpo daquele jovem senhor, másculamente entalhado na lida diária da fazenda, com a pele tostada de sol e aquela profusão de pelos no peito largo que se juntavam numa espécie de redemoinho logo no meio do peito e descia formando um caminho que ia se estreitando ate se abrir de novo depois do umbigo e explodir numa massa disforme de pentelhos que anunciavam o maior membro masculino que já havia visto na minha vida, até ali, é claro…perdido na minha visão de desejo esbarrei numa vassoura e revelei minha presença, que não causou susto nenhum nele, pois em minha primeira embriaguez de maconha eu não tinha reparado que aquele homem no chuveiro me olhava e de repente sem dizer nada me chamou com um gesto rápido, ao que eu já na porta do banheiro disse um não simplesmente  balançando a cabeça…que óbvio não foi atendido nem por ele que me alcançou na porta e me puxou pra debaixo da agua fria do chuveiro enquanto me ajudava a me livrar das roupas já encharcadas…só consigo lembrar das mãos fortes dele me pegando,  eu havia realmente passado mal, comecei a vomitar, sujando todo o banheiro e acabando com o clima eu pensava, em algum lugar de mim estava minha consciência morrendo de vergonha pelo papelão, mas que observava aquele homem rude cuidar de mim, gentilmente ele me levou para um quarto dos tantos vazios ali, me deitou numa rede depois de tirar completamente a minha roupa molhada…e…deitou-se comigo…eu ali inerte com aquele homem a apalpar minhas carnes jovens e tenras ainda suaves e macias como as de uma mulher…acordei quando já era dia feito, e a casa estava ainda em silêncio, mas cheia de gente espalhada por todos os cantos, na cozinha eu ouvia vozes…e….definitivamente esse calção que eu estava usando não era meu, muito menos essa camisa do fluminense, ainda grogue fui até a cozinha onde algumas garotas estavam preparando algo pra comer, dei bom dia, todas me responderam com um sorrisinho safado tipo: ”eu sei o que vocês fizeram na noite passada”, mas felizmente era carnaval e todos sabemos que carnaval é pra isso mesmo, enquanto conversávamos eu encontrei o que procurava aquela cachaça de alambique que eu provara no dia anterior…e….que agora tinha outro gosto…de paixão…enquanto perguntava sobre meu amigo e como tinha sido a noite delas, outros rapazes foram acordando naquele domingo ensolarado, começamos a beber daquela cachaça todos juntos, a garrafa ia de mão em mão, todos espalhados em volta do fogão a lenha a crepitar e onde as garotas preparavam um frango caipira com batatas que foi tudo o que tinha por ali, peguei algum dinheiro que tinha os rapazes também e fizemos uma vaquinha pra comprar algumas coisas que precisávamos para fazer um almoço digno para todo mundo, uns foram as compras, outros ajudaram a montar uma mesa com umas portas velhas e uns cavaletes de madeira que achamos no quintal, onde todos nos sentamos em alguns tamboretes e caixotes que também encontramos por ali e quando estávamos já nos servindo as outras pessoas apareceram inclusive meu amigo e seu namorado Aírton, que a essa altura não escondia mais de ninguém seu caso, afinal ele era o dono da casa, quem iria recriminar? Assim nesse clima a noite chegou e tudo aconteceu novamente fumei maconha de novo com Ivana, Marcelo e outras pessoas, dessa vez na praça da cidade pra todo mundo ver…Marcelo era o mais feliz, era a primeira vez que os amigos dele resolviam fazer isso na frente da população da cidade que o olhava de um jeito torto, ao verem aquele grupo de jovens, bonitos bem vestidos e endinheirados todos fumando maconha, foi como se enfim as pessoas entendessem que no fundo não havia nada de tão ruim ali…nesse clima de folia e alegria, lembrei de Wilson e resolvi voltar pra casa a pé sozinho de novo na esperança de que acontecesse tudo outra vez…e…ao virar a esquina da rua eu vi a caminhonete dele na frente da casa embaixo da amendoeira, meu coração pulou na hora, apressei o passo e alcancei a porta que estava encostada, entrei na casa escura e segui rápido como as batidas do meu coração naquela hora, até os fundos da casa de onde vinha uma claridade saída pela porta entreaberta do banheiro, quando olhei não tinha ninguém ali…voltei pra cozinha e enquanto mexia nas coisas a procura das garrafas de cachaça pra aliviar minha frustração ouço uma voz grave dizer: “está procurando alguma coisa moço?” – ao me virar me deparo com aquele homem a me sorrir um pouco sem jeito com cara de quem fez alguma coisa errada…a segunda feira de carnaval começou com Wilson nos levando a todos pra fazenda na caminhonete dele, eu, Ivana e Marcelo na frente com ele dirigindo, Marcelo enrolando um baseado de maconha pra fumarmos, pois ele também fumava de vez em quando, o lugar era lindo, uma casa simples toda envarandada parecendo saída daquela música de Elis Regina: “eu quero uma casa no campo…”, tinha um rio que corria no fundo da propriedade onde nos banhamos a vontade até o anoitecer, enquanto uns preparavam a comida outros tocavam violão, conversavam, bebiam e fumavam maconha sem parar, no embalo das redes postas na varanda, de onde nós víamos os últimos raios do sol se esconder no morro depois do rio…assim que o lume das estrelas clariou a noite sem luar os garotos que não estavam acompanhados quiseram voltar pra cidade, como eram ainda de menor, eu sugeri que deixasse a Ivana tomando conta de tudo e eu iria acompanhar ele e deixar os garotos de caminhonete na cidade, e assim fomos nós cinco, Ivana ficou namorando escondido seu playboy maconheiro, meu amigo sumira no mato com Aírton, pra fazer sabe se bem o quê, e as outras garotas e garotos  tinham se entendido, literalmente, pois uma amiga da Ivana resolvera experimentar uma relação homossexual também…e…nesse clima de perfeita harmonia carnavalesca voltamos para a cidade eu e Wilson, agora meu amante, posto que ocupou até a quarta feira de cinzas quando nos despedimos casualmente como costuma acontecer com as paixões de carnaval…muito tempo se passou…Ivana acabou casando com Marcelo, estão juntos desde aquela época com filhos adolescentes já, meu amigo também hoje está casado e até adotou uma linda garotinha moreninha recentemente junto com seu marido, chamada Mouriza, eu depois de muitos carnavais resolvi me aposentar da festa que começa em todo o país logo mais a noite. Prefiro hoje ficar sussegado, com meus cachorros e meu namorado que por ser mais jovem que eu, ainda vê sentido em sair pelas ruas a pular com os blocos…eu…hoje com mais ou menos  com a idade de tio Wilson, quando esta história aconteceu, não sei precisar o que aconteceu com ele nem com nenhuma das infinitas paixões de carnaval que tive depois dali…só sei que foram tempos muito excitantes, onde a força inexorável da juventude sempre nos impelia as mais loucas e inesquecíveis aventuras que pretendo contar aqui, uma a uma se a minha memória me permitir…!!!,-) #TONELADASDEDESEJO

P.S. …ah, Paulo Motta, depois se transformou no melhor amigo do meu amigo e hoje é quase uma figura folclórica tombada pelo patrimônio histórico do lugar…

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